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LONDRES – Das respostas intempestivas a comentários agressivos que recebeu pelo Twitter, após ser eliminada da competição de judô dos Jogos de Londres, Rafaela Silva fez questão de se desculpar. Mas algumas delas ainda lhe doem bastante, a ponto de ela não segurar as lágrimas na manhã desta terça-feira, no Excel Centre, onde assistia às lutas de Leandro Guilheiro e Mariana Silva. Rafaela foi vítima de racismo e o GLOBO teve acesso às acusações que lhe foram enviadas pelo Twitter, dizendo que “lugar de macaca é na jaula” e que “vc não é melhor do que ninguém porque você é NEGRA”.

O racismo pelo Twitter vai virar caso de polícia. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, disse que vai determinar à Polícia Federal que investigue o caso.

– Racismo é uma questão de Justiça. É uma indignidade onde não foi apenas a atleta que foi desrespeitada. É um desrespeito ao povo brasileiro. A PF vai entrar no caso pois estamos falando de um ser humano que além de representar seu país recebe bolsa-atleta – disse Aldo, que soube do caso pelo GLOBO.

O ministro contou que esteve com ela na segunda-feira depois da eliminação. E tratou de estimular a atleta, que considera ter um enorme potencial para disputar medalhas nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

– Rafaela é uma moça muito jovem. Tenho enorme carinho por ela. Sem contar que é um exemplo de esforço e dedicação que soube superar adversidades na vida. Após a luta eu a abracei e a consolei. Reforcei a confiança que temos no talento dela. E disse que o governo vai continuar a apoiá-la com o bolsa-atleta.

COB divulga nota e diz que Rafaela não quer prosseguir com o caso
O Comitê Olímpico Brasileiro divulgou nota repudiando o acontecimento e informando que a atleta desistiu de levar adiante o caso.

“A Missão Brasileira em Londres, prestando auxilio jurídico a atleta, consultou o departamento jurídico do COB sobre as medidas legais que possam ser tomadas. No entanto, a própria Rafaela Silva não pretende dar prosseguimento ao caso”, disse a nota do COB.

O secretário nacional de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, Ricardo Leyser, informou que o ministro Aldo tomou conhecimento da intenção de Rafaela de não levar o caso adiante.

– Nós pedimos a assessoria jurídica do Ministério do Esporte uma orientação. Queremos verificar se podemos ou não pedir a investigação do caso, já que a atleta desisistiu – disse Leyser.

Mais cedo, o chefe de equipe do judô e diretor-técnico da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), Ney Wilson, tinha dito que a CBJ estudaria modos de fazer com que os insultos não ficassem impunes.

– Já encaminhamos o caso à chefia de delegação do COB e, independentemente do que eles forem fazer, vamos pedir que o caso seja investigado – afirmou Ney.

Neymar se solidarizou com a judoca brasileiro, enviando mensagem pelo Twitter:

“Sei como vc se sente! Agora é ficar ao lado dos que te amam de verdade e treinar muito para realizar seu sonho na Rio-2016”, escreveu o craque da seleção brasileira.

A judoca tinha admitido inicialmente, ao GLOBO, que não queria que o caso fosse investigado.

– Não gostaria que ficasse assim. Racismo nunca aconteceu comigo. Não sabia nem o que falar. Na hora, só desliguei o computador. Falaram essas coisas e também que minha família não teria orgulho de mim. Foi isso o que mais me ofendeu – disse ela.

Geraldo Bernardes, mestre de Rafaela e que junto com Flávio Canto coordena os núcleos do Instituto Reação em comunidades carentes do Rio, como Rocinha, Tubiacanga e Cidade de Deus, disse que nunca houve casos de racismo envolvendo seus atletas.

– O núcleo onde ela surgiu fica dentro de uma academia de classe média alta, em Jacarepaguá, e todo mundo treina junto, seja rico ou pobre. De quimono, não há distinção de raça, cor, nada. Acho que a página virada tem de ser pelo que aconteceu na luta, por um golpe normal do judô que a regra não permite. Mas essa questão do racismo não pode ficar impune. Onde vamos parar?

CBJ vai pedir moderação no uso da redes sociais
As ofensas racistas contra Rafaela partiram de um usuário apelidado “Urubu Palheta”. Ela as encaminhou para Rosicleia, técnica da seleção braisleira feminina, que defendeu a atleta hoje de manhã, após a derrota da peso meio-médio (até 63kg) Mariana Silva para a chinesa Lili Xu, por wazari, logo na primeira luta.

– Não estou justificando a atitude da Rafaela, mas explicando o que aconteceu. Você vem de uma derrota dolorosa daquelas, em que até os árbitros tinham dado o wazari a favor dela, abre o computador para encontrar algum conforto de amigos e familiares e se depara com uma ofensa desse nível? Que país é esse em que a cor de pele justifica um ato dessa natureza? Animal é quem fez isso. Este sim é que deve ir para uma jaula – afirmou Rosicleia. – Acho que ninguém está preparado para se deparar com uma agressão tão grande assim, ainda mais uma menina tão jovem e numa situação de cabeça quente. A orientação é ficar longe das mídias sociais, embora a gente saiba que é um meio mais rápido de se comunicar com as pessoas que a gente gosta. Foi uma forma infantil, mas humana de reagir.

Rosicleia, no entanto, admitiu que a orientação, de agora em diante, é para os atletas evitarem ao máximo as redes sociais. A própria CBJ já havia solicitado antes dos Jogos que, para manter a concentração na preparação, os atletas evitassem usar as redes sociais por muito tempo.
– Depois que a porta abriu, a gente tenta botar o cadeado. As redes sociais são muito perigosas e nunca pensei que algo num nível tão baixo pudesse acontecer contra uma de nossas atletas.

Fonte: O Globo

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