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Toda vez que os professores mencionam a participação dos negros na história e cultura brasileira, Luana Manoel Borges Garcia, de 11 anos, estudante do 5º ano do ensino fundamental, sente-se desconfortável. “Meus professores me citam quando mencionam a escravidão ou os poucos negros bem-sucedidos da história. Não me sinto bem pela raridade ou relação com a tristeza e sofrimento sofridos pelo povo negro”, afirma. Foi pensando em mudar essa realidade que transcende o tempo e fazer valer a lei federal 11.645 – que desde 2003 prevê a inserção da história e cultura afro e indígena no currículo educacional -, que o Centro Cultural Quilombinho idealizou e iniciou o 1º curso “Relações Étnico-raciais”.

O curso gratuito, composto por 60 horas divididas em sete sábados/aula, foi iniciado na semana passada e conta com a parceria da Secretaria de Educação de Sorocaba, através da participação 60 professores da rede municipal de ensino. “Nós temos uma lei que obriga as escolas públicas a inserir a história afro-brasileira e africana nos currículos escolares. Os assuntos devem ser abordados em disciplinas como Educação Artística, Literatura e História do Brasil. Porém, a lei ainda não é aplicada. Não há diretrizes ou penalidades. Mas diante da necessidade explícita, nós optamos por fazer a nossa parte”, explica Mariana Martha de Cequeira Silva, coordenadora pedagógica do Centro Cultural Quilombinho e responsável pela organização do curso.

Ela assume que não há pesquisa específica sobre a quantidade de negros e pardos matriculados nas escolas sorocabanas. Mas destaca a percepção sensorial desenvolvida na entidade. “Nós sabemos que no Brasil os negros e pardos são maioria, mas que em Sorocaba são minoria. Sabemos também que há poucos estudantes negros no ensino particular e que esse número cresce na rede pública, embora aqui os brancos prevaleçam. Porém, quando olhamos os dados criminais e/ou pejorativos, como menores apreendidos, pessoas assassinadas, os negros e pardos são maioria”, observa. A coordenadora pedagógica está certa. Segundo o Censo 2010, pela primeira vez a população brasileira deixou de ser predominantemente branca.

Nos dados daquele ano, última pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), as pessoas que se declararam brancas somaram 47%, enquanto nos demais censos sempre estavam acima de 50%. De acordo com os dados, a população negra é de 7%, mas a parda totaliza 43%, enquanto a indígena soma 1% e a amarela 2%. Sorocaba, que soma 586 mil habitantes, não tem os dados detalhados do censo 2010, mas os gráficos acompanham a evolução do Estado, que também é semelhante aos nacionais. Mas apesar dos dados, foram os relatos como do menino Rafael de Araújo Costa, de 10 anos, estudante do 4º ano do ensino fundamental, que justifica a idealização do curso, garante Mariana.

É que Rafael, declarado branco, também sente-se constrangido quando o assunto é a história afro-brasileira. Ele incomoda-se devido a empatia pelos amigos negros. “Eu não vejo diferença alguma entre brancos e negros. Mas quando o professor começa a falar sobre a escravidão, não gosto muito”, assume. Segundo Mariana, estes sentimentos descritos pelos estudantes são compartilhados por muitos outros, há muito tempo. “Quando eu estudava, na década de 1980 e 1990, já era assim. É preciso mudar a forma do brasileiro se relacionar com a vasta influência da história e cultura africana e negra”, destaca ela, que formou-se em pedagogia na Universidade de São Paulo (USP).

Para ela, o objetivo não é esquecer a escravidão, mas aprender a falar o quanto os negros construíram, a importância do trabalho braçal no Brasil Colônia. “Precisamos destacar a importância desta influência na culinária. Devemos deixar de mencionar as danças e batuques com origens profanas e exaltar sua raiz, lá na África, seus significados. O importante é fazer com que o aluno negro ou pardo deixe de se sentir à margem da história e passe a sentir-se integrante dela. Valorizado”, defende a coordenadora, que acrescenta: “E às vezes os professores não fazem isso porque não sabem como”. Por conta disso, o curso organizado pelo Quilombinho visa ensinar a história africana e como inserí-la na sala de aula.

Além da mudança na forma de mencionar a história, elevar a cultura afro-brasileira por meio de eventos lúdicos, como utilizar o hip hop, também deve ajudar. “Esse é o caminho da igualdade”, defende Mariana. Por essa razão, professores, doutores, pesquisados da cultura afro e integrantes do Quilombinho desenvolverão nos próximos sábados os temas: a lei federal 11.645; o racismo; a história africana; a presença negra no Brasil e em Sorocaba; a escola, currículo e africanidades; e o afro-brasileiro de todo dia. O primeiro curso, programado pela entidade, teve apenas 60 vagas disponibilizadas.

Mas a monitora do Quilombinho, Maiara Fernanda de Souza Cruz, de 18 anos, é uma das pessoas que fazem o curso. Além de ter vivenciado a abordagem pejorativa da historia africana em sala de aula, ela deseja aprender a valorizar a memória afro-brasileira. “Estamos tão acostumados com a predominância branca que nem percebemos que há outra forma de ver nossas origens e importância”, argumenta. Segundo a coordenação, há projeto para abertura do 2º curso “Relações Étnico-Raciais”, mas ainda não há parceiros para o custeio. Informações na sede da entidade, na rua Caramuru, 203, Vila Leão. Telefone (15) 3018.8090 ou marimcs05@yahoo.com.br.

Fonte: Jornal Cruzeiro

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