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O prefeito de São João de Meriti, Sandro Matos (PR), admite que não sabia quem foi o marinheiro João Cândido Felisberto (1880-1969) até assumir o seu primeiro mandato de vereador na cidade, há dez anos. Só descobriu a história do negro que liderou a Revolta da Chibata (1910) porque existe uma medalha com o nome dele na Câmara local. Agora, o prefeito, aos 40 anos, pretende construir no alto do Morro do Embaixador, área pobre de Meriti, um museu em homenagem ao marinheiro, conhecido como “almirante negro”. Gaúcho, ele morou na cidade até morrer, aos 89 anos.

Se sair do papel, o Museu Marinheiro João Cândido será o primeiro do município de 450 mil moradores. O investimento previsto é de R$ 5 milhões. Matos afirma que já conseguiu R$ 2 milhões do governo federal e que pelo menos mais R$ 2 milhões estão prometidos para o início de 2011. O projeto engloba urbanização, iluminação, drenagem e saneamento da área. As ruas do morro são de barro e não há tratamento de esgoto.

A ideia é reformar uma casa no topo do morro, construída no fim do século 19, e usá-la como bilheteria e biblioteca do futuro museu, projetado em forma de navio. Atualmente, dez pessoas moram no local. “João Cândido é um herói municipal. Se bobear, a população não sabe quem foi. Eu mesmo estudei em colégio municipal e só fui saber quando me tornei vereador”, diz.

O museu vai abordar a revolta e a história do marinheiro, além de abrigar exposições temporárias e ter espaço para apresentações musicais e de teatro. Segundo o projeto, haverá um prédio principal, de 400 metros quadrados, e outro menor, de 200 metros quadrados, além da casa.

O acervo, diz Matos, será doado pela família de João Cândido, entidades como a Fundação Cultural Palmares e a Marinha, com apoio do Instituto Brasileiro de Museus. Segundo ele, a “pedra fundamental” será lançada dia 27, 100 anos após a Revolta da Chibata, com a presença do ministro da Secretaria de Políticas de Promoção de Igualdade Racial, Elói Ferreira. A pasta é uma das parceiras do projeto. O início das obras, porém, está previsto para abril de 2011, com prazo de um ano para sua conclusão. E o preço do ingresso? “A ideia é que, a princípio, o museu seja gratuito”, diz o prefeito. O objetivo é levar estudantes para conhecer a história da revolta.

O Morro do Embaixador tem esse nome porque a casa no topo que hoje é motivo de disputa abrigou um embaixador de Portugal no século passado. Ao lado, fica o Morro do Guarani, dominado por uma facção criminosa que usa o local como rota de fuga. Para o prefeito, o projeto vai levar qualidade de vida ao bairro.

Despejo. As dez pessoas que vivem na casa que deve abrigar o museu não aprovam a ideia da prefeitura. “O dono disso aqui deixou para o meu avô há 40 anos. Já veio um pessoal da prefeitura, mas não tem nada de concreto até agora. Querem tirar a gente do nada, não dá. Tá todo mundo com medo de ficar sem casa”, diz José Célio de Oliveira, um dos moradores. Para ele, um museu é “a última coisa que o morro precisa”. “Não tem nada a ver. Deviam asfaltar, botar um campo, uma pracinha. Quem vai subir morro para ver museu?”

O prefeito afirma que a família está “morando de favor”. “O terreno não é deles, está penhorado por causa de uma dívida federal. Nós vamos fazer o depósito da penhora judicial. Com isso, o imóvel passa para a prefeitura, e eles terão prioridade em um condomínio do Minha Casa, Minha Vida que fica a 3 km.” Matos afirma que os atuais moradores não serão retirados do local até que haja uma solução definitiva de moradia para eles. “Vamos liberar dois apartamentos. Para eles, vai ser muito melhor.”

QUEM FOI:

JOÃO CÂNDIDO: Marinheiro e líder da Revolta da Chibata

Em 16 de novembro de 1910, um companheiro de João Cândido Felisberto (1880-1969) foi condenado a receber 250 chibatadas por ferir um cabo no navio Minas Gerais. João Cândido conduziu 2,3 mil marinheiros, sargentos e cabos e tomou embarcações, fez oficiais reféns e provocou a morte de seis militares. Depois de seis dias de motim, o governo aceitou o fim das punições físicas. Mas os revoltosos foram fuzilados e presos; João Cândido ficou detido por quase dois anos. Depois, trabalhou como carregador de peixes. 

Fonte:Estadão 

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