No concerto de encerramento da temporada de 2011 – dia 12 de dezembro (2011), às 19h, no Salão Leopoldo Miguez -, sob a batuta do maestro Ernani Aguiar, a Orquestra Sinfônica da UFRJ (OSUFRJ) vai apresentar peças de Mignone, do Padre José Maurício Nunes Garcia e uma obra inédita, intitulada “Suíte Jongo da Serrinha”. O autor, Filipe de Matos Rocha, é aluno do professor Pauxy Gentil-Nunes, na Graduação em Composição da Escola de Música, e ganhou bolsa da Secretaria de Cultura do Estado para um trabalho que envolveu muita pesquisa. Veja, a seguir, a entrevista.

Professor, que prêmio foi esse?

Pauxy: O Filipe foi contemplado pelo edital de chamada pública que selecionou projetos para apoio financeiro à Pesquisa e Criação Artística nas áreas de Artes Cênicas, Artes Visuais e Música de 2011, da Secretaria de Cultura do Estado.

Por que escolheu esse tema?

Filipe: Pauxy tinha me sugerido algo relevante para a cultura do Rio de Janeiro. Encontrei muito material sobre o Jongo da Serrinha no Museu do Folclore e achei interessante.

Como foi a pesquisa?

Pauxy: Começou com as fontes secundárias – filmes, livros, gravações, entrevistas -, que ocuparam nossos primeiros meses. Depois, veio a aproximação com o Grupo Cultural Jongo da Serrinha, uma ONG que mantém viva a tradição da comunidade. Foi um momento de descoberta, pois encontramos um modo artístico muito refinado e profundo, além de pessoas especiais, com um jeito de ser gentil, respeitoso com os mais velhos, que são considerados sábios. Há valores muito interessantes no Jongo, um código de ética. Diferente do samba, o jongo está ligado à interiorização, reflexão, espiritualidade.

O orientador então participou diretamente?

Pauxy: Sim, aqui mesmo na Escola, a professora Rosa Zamith tinha me sugerido conhecer o Jongo. Mas imaginava que o acesso fosse difícil. Quando Filipe trouxe a ideia, vi que era a hora certa. O Jongo da Serrinha foi registrado como Patrimônio Imaterial da Cultura pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 2005. Achei a participação importante para realizar essa orientação, quis conhecer de perto essa tradição.  Juntamente com Filipe, fiz aula de canto, harmonia, percussão, dança do jongo.Tudo integrado, que é como eles concebem.

Pode falar mais sobre o Jongo?

Filipe: É uma manifestação cultural de origem africana, até hoje praticada no morro da Serrinha, no bairro Madureira, Zona Norte do Rio. Instalou-se na região juntamente com os ex-escravos vindos das fazendas de café do Vale do Paraíba. Só existe Jongo no sudeste, muitas comunidades foram extintas. Em alguns lugares, chama-se Caxambu.

Depois do contato com a ONG, o que ocorreu?

Filipe: Conhecemos o Pontão de Cultura do Jongo/Caxambu. É uma instituição ligada ao Iphan e tem como missão garantir as políticas de salvaguarda do Jongo. Comecei então a acompanhar o Encontro das Comunidades Jongueiras, um dos quais ocorreu no Quilombo de São José da Serra, em Valença, dia 13 de maio, quando comemoravam a abolição da escravatura e todas as comunidades jongueiras se encontram lá.

E como prosseguiu?

Filipe: Passei a me dedicar à composição, baseada nos elementos rítmicos, melódicos e rituais do Jongo e no conjunto de gestos da tradição jongueira, transportando-os para uma forma orquestral. Não me ative ao aspecto religioso. Meu projeto é analisar as características da linguagem e a estruturação musical do Jongo da Serrinha e aplicá-las à orquestra de câmara.

Outros trabalhos assim já foram feitos?

Pauxy: Há peças clássicas com utilização dos instrumentos do Jongo. Um exemplo é o Choros nº 10, de Villa-Lobos. Pesquisadores também vêm registrando a manifestação cultural. Mas o que Filipe fez foi criar uma peça, em contato direto com a comunidade e a partir dos elementos do Jongo.

O que mais destacaria?

Filipe: Quero contribuir para aumentar o interesse dos profissionais e dos apreciadores da música de concerto pelas comunidades jongueiras, e para o intercâmbio entre as diferentes representações culturais, reduzindo a distância entre as que ainda são consideradas de “elite” e as expressões folclóricas e populares, ampliando assim também a formação de platéias. No dia 21 de dezembro faz dez anos do falecimento de mestre Darcy Monteiro.

Pauxy: Foi uma liderança importante no movimento de resistência cultural, que tirou o Jongo do processo de quase extinção para as conquistas recentes.

Filipe: Mestre Darcy sonhava levar o Jongo para o Teatro Municipal e para a orquestra. Nessa busca, fez temporada no Teatro João Caetano e apresentações nas proximidades dos Arcos da Lapa. Agora, esse projeto realiza seu sonho, pelo menos em parte.

Fonte: Escola de Música da UFRJ

 

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