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Protagonizar uma novela está longe de deslumbrar Camila Pitanga. Certa de sua vocação para a atuação e avessa à fama e outras vaidades comuns ao meio artístico, aos 35 anos a atriz valoriza traços de seus trabalhos que vão além da exposição excessiva que uma mocinha traz para seu currículo.

Atualmente na pele da sofrida Isabel de Lado a Lado, da Globo, Camila comemora o fato de poder, em seu primeiro folhetim de época, propor uma reflexão sobre o papel dos negros e, de quebra, da mulher do início do século passado.

“É interessante comparar o Rio de Janeiro de 100 anos atrás com o de hoje. Estamos vendo uma nova forma de falar sobre o preconceito racial e contra as mulheres na história. Coisas que, infelizmente, até hoje a gente encontra”, justifica.

Mesmo assim, prefere deixar de lado qualquer assunto que diga respeito à discriminação dos negros na sociedade. Para Camila, o mais importante não é isso.

“‘Lado a Ladofala sobre os ex-escravos e seus descendentes se afirmando na sociedade. Com todas as dificuldades que foram impostas, mas se afirmando. E é assim que eu acho que deve ser visto”, opina.

Essa é sua primeira novela de época. Com está sendo a experiência?
Está me dando a oportunidade de pensar sobre esse tempo. E estou adorando. É a minha primeira novela no gênero, mas fiz uma minissérie de época, A Invenção do Brasil. Sempre que você olha para a história, acaba refletindo melhor sobre o hoje. Naquele tempo, havia a questão da mulher, do racismo, é verdade, mas tudo isso é bem contemporâneo. Só que em 1904 ganha tintas mais fortes. Mesmo a mulher rica e bem nascida passa pelos dilemas da sociedade. É muito interessante ver essa semelhança em duas realidades tão diferentes.

camila2A forma de falar em Lado a Lado não é rebuscada como em outras novelas de época. Que cuidados foram tomados com essa parte?
A sensação que eu tenho é de tirar palavras contemporâneas. Mas o desejo é que a gente alcance algo mais neutro. Ninguém quer falar com o português castiço, que seria da época, ou com uma prosódia também muito antiga. Eu acho que é um meio do caminho. Eu, pelo menos, tenho esse cuidado.

Seu cabelo é bem diferente do que a gente vê no ar em “Lado a Lado”. Como é feita essa transformação e quanto tempo demora?
Nossa, eu acho lindo o resultado. E não parece, muita gente nem acredita, mas é o meu cabelo mesmo ali. Só que a gente trabalha bem a parte da frente. Demora um pouquinho porque eu tenho que praticamente trançar ele todo ainda molhado, usar o secador e, depois, soltar. Assim que a gente solta, ele fica na textura da peruca que complementa o meu visual. É um processo trabalhoso, chega a dar umas duas horas. Mas compensa.

A Isabel é uma personagem que sofre bastante. Você sente que esse sofrimento gera uma empatia com o telespectador? Tem receio que isso se torne cansativo?
Eu espero que crie essa empatia. Mas a Isabel é uma grande batalhadora. Uma mulher que, além das dificuldades da vida dela, dos desencontros com a sua família e com quem ela ama, vive um período histórico que, para as negras, foi muito difícil. Só que, mesmo assim, ela é bem resistente no que diz respeito à autoestima e aos seus valores. Isso faz dela uma personagem muito bonita. Como ela sofre, mas não perde a gana de lutar e de ir em frente, creio que pode comover bastante o pblico.

Você já morou no Chapéu Mangueira, comunidade encravada em um morro no Leme, na Zona Sul do Rio. Você chega a encontrar nessa história de Lado a Lado algo da experiência que viveu nessa época?
Pensando agora, sim. Mas eu nem tinha refletido sobre isso. A experiência que eu tive no Chapéu Mangueira foi muito bonita. Foi breve, durou um ano e meio ou pouco mais e, sem dúvida, faz parte do meu repertório. Acho que o povo brasileiro, principalmente o mais pobre, é muito unido. É um pessoal que tem solidariedade, corre atrás, arregaça as mangas e trabalha em conjunto. E acredito que não era diferente naquela época.

Você faz par romântico com Lázaro Ramos, com quem já dividiu cenas em Insensato Coração. Como foi esse reencontro?
O Lázaro é um grande amigo, uma inspiração para qualquer atriz. Mas o mais bacana é que, agora, são caminhos bem diferentes. No caso do André e da Carol, nossos papéis em Insensato Coração, o amor até tangenciava, mas não era verdadeiro de ambos os lados. Sempre que um queria, o outro não estava interessado. Em Lado a Lado, há um desencontro, mas essa não é a questão principal. Isabel é uma mulher à frente do seu tempo, que trabalha e é independente. Existe uma admiração dele por isso, mas é difícil também para um homem de 1904 admitir toda essa vanguarda. Aí aparecem os conflitos.

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 Facilita fazer par com alguém que você já conhece?
Sim, sem dúvida. Até porque já existe a cumplicidade, um jogo muito aberto para as cenas. Faz você afinar, pensar junto. Mas olha, isso eu estou conseguindo mesmo com o Rafael (Cardoso, que interpreta Albertinho), com quem eu não tinha trabalhado antes. Não tem sido um mérito só da minha relação com o Lázaro.

Você tem muitas cenas de dança na pele da Isabel. Foi fácil se preparar?
Eu amo dançar. Minha mãe tem formação em dança, é uma atividade que sempre esteve presente na minha casa.

E você tem vontade de usar mais esse conhecimento profissionalmente?
Bom, a vida vai levando. Mas é uma coisa que sempre pratiquei, já fiz diversas aulas. Inclusive esse ano eu fiz aula de dança para caramba. E isso sem imaginar que seria interessante para a novela. Explorei bem a dança contemporânea.

Além da novela, você está à frente da apresentação do Som Brasil. Já gravou todos os episódios dessa temporada? E a próxima, continua com você?
Ainda não. Tenho mais dois que devo gravar até o final do ano. Sobre 2013, aí é um assunto para o ano que vem. Todo ano a gente conversa e decide o que vai acontecer. Mas a minha vontade, é claro, é de continuar com o programa. Eu amo fazer.

Você sempre foi ligada à dança, já usou a música para compor personagens e apresenta um programa musical. Em algum momento pensou em fazer algo como cantora?
Eu sou atriz. Mas gosto de dançar e cantar. Desenvolvo os meus instrumentos para poder melhorar minha atuação e um deles é a minha voz. Acho que é sempre bom para o ator criar mais conhecimento, ter habilidades específicas. Então, quem sabe?

Você nunca pensou em fazer um musical?
Eu adoraria. Já andei conversando sobre isso. É, de fato, um desejo meu. Mas estou falando de algo que eu gostaria de desenvolver. Porém, não tem uma semente clara a respeito disso. Ainda não é um projeto, trata-se apenas de um sonho. Por enquanto.

Fonte: Mulher Negra e Cia

 

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