Tags

, , , , ,

lobato racismoHumberto Adami, membro do Iara, graduado em Direito pela Universidade Brasília e mestre pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ex-ouvidor da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial

“Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde.” A afirmação, retirada de uma carta de Monteiro Lobato ao amigo e escritor brasileiro Godofredo Rangel, é uma das razões que levaram o criador do Sítio do Picapau Amarelo a se tornar pivô de uma grande polêmica.

Segundo o advogado Humberto Adami, o autor era confessadamente simpatizante da eugenia e defendia o aperfeiçoamento da espécie humana pelo branqueamento da população. Mais do que isso, Lobato dizia utilizar a escrita como forma de disseminação de ideais racistas, como comprovariam as cartas enviadas por ele ao médico Renato Kehl, maior propagandista da eugenia no Brasil. Em uma delas, o escritor afirma que o romance de ficção científica O presidente negro, de 1926, é um “grito de guerra pró-eugenia.”

Adami afirma que “o quadro não é de inocência como se quer fazer crer” e que uma criança negra pode se sentir arrasada ao ler as referências a negros contidas em livros como Caçadas de Pedrinho. Ele também nega que o Iara queira censurar os livros de Lobato. Em resposta às críticas que o instituto tem recebido, diz que quem pratica censura são aqueles que não aceitam discutir o suposto racismo na obra do escritor.

Com relação à polêmica criada em torno do livro Caçadas de Pedrinho, o Ministério da Educação afirmou que não admite censurar obras de Monteiro Lobato ou qualquer outro livro com valor literário. Qual foi a solução para o caso apontada pelo Iara?

O instituto também é contra a censura da obra de Lobato. O que nós pedimos não foi nem a retirada do livro nem o banimento, mas a aplicação de regras do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), que proíbem o financiamento de livros didáticos que contenham expressões de estereótipo ou preconceito. Essa é a regra do PNBE que o ministério está descumprindo. O que as pessoas esquecem é que há racismo em Lobato. A personagem Tia Nastácia sofre explícito racismo. E não é possível que o livro vá para a sala de aula sem ao menos uma nota. Como, aliás, o próprio MEC já fez com relação à lei de crimes ambientais no que se refere à passagem da caça à onça.

Há uma nota em Caçadas de Pedrinho sobre o fato de a turma do Sítio do Picapau Amarelo se reunir para matar uma onça?

Sim. No livro, em obediência à Lei de Crimes Ambientais, segundo a qual você não pode caçar onças-pintadas, há uma nota dizendo que hoje não se pode mais matar onça. Com isso, o MEC concorda e não é censura. Já a Tia Nastácia pode subir que nem uma macaca de carvão e trepar num pau com toda a agilidade, como é dito em uma das muitas passagens racistas. Não pode a questão do negro, no livro, ser inferior à questão da onça.

Neste livro, Tia Nastácia não é a única a ser comparada a um macaco. No trecho em que a turma do sítio é atacada por uma onça, todos são comparados ao animal. A obra diz: “Foi uma debandada. Cada qual tratou de si e, como se houvessem virado macacos, todos procuraram a salvação nas árvores.”

Mas a referência a uma “macaca de carvão” só é feita à Tia Nastácia. Há ainda outras passagens em que ela é chamada de carne preta [ao saber que o sítio seria atacado por animais selvagens, a personagem Emília diz: “É guerra e das boas. Não vai escapar ninguém — nem Tia Nastácia, que tem carne preta”.]. O pessoal diz que isso era muito comum, porque o Lobato saiu da época da escravidão. Só que, se você colocar esses temas na sala de aula hoje, você reaviva todos esses resquícios da escravidão. Não adianta fazer campanha contra o bullying na escola se você deixa esse material sem tratamento – não só com uma nota de contextualização, mas principalmente com a capacitação dos professores. 

Depois de Caçadas de Pedrinho, um livro de contos de Monteiro Lobato, Negrinha, também foi acusado pelo Iara de conter citações racistas. Quais seriam os conteúdos preconceituosos dessa publicação?

Em primeiro lugar, trata-se de um livro que contém, sim, cenas de racismo. Ele mostra a história de um menina de 7 anos que sofre surras diárias. Ainda que fosse uma forma de denúncia, as cenas são explicitamente de racismo e evidentemente contêm preconceito e estereótipo. Mas o curioso é que o livro tem uma nota explicativa que diz que o conto prova definitivamente que não havia racismo na obra de Lobato. O problema não é tanto o livro, mas a qualidade das notas. Há outra questão. Quando ocorreu a reunião com o ministro Luiz Fux, o MEC alegou que não comprava o livro Caçadas de Pedrinho desde 2005. Mas o Negrinha foi adquirido pelo PNBE em 2010. 

Segundo professores de literatura, o conto que dá nome ao livro, longe de promover o racismo, desperta no leitor um sentimento de compaixão diante do sofrimento da personagem.

Eles deviam botar o filho deles na sala de aula, para que algumas crianças passassem diariamente a praticar atitudes vexatórias contra ele. São atitudes que existem nas salas de aula do Brasil com crianças negras e que as outras acham que não passam de brincadeiras. Se você perguntar para qualquer mulher negra mãe de família sobre o assunto, ela dará uma resposta muito clara, dizendo que filhos são constrangidos. 

Estudiosos de Monteiro Lobato dizem que o conto não é racista, apenas mostra a forma como uma personagem preconceituosa (Inácia) concebe o mundo. As tramas ficcionais teriam de conter apenas personagens politicamente corretas?

Ninguém quer mexer no livro. O importante é usar o conto para desconstruir o racismo. Alguns acham que o problema maior é o conto em si, nós pessoalmente dizemos que o que resolve no momento é ter pelo menos uma nota de contextualização e a capacitação dos professores. O que não dá é para dizer que isso não tem consequência nenhuma e que você pode jogar esse texto na sala de aula sem cuidado nenhum. Isso é falta de sensibilidade daqueles que não se compadecem com a história do afrodescendente no Brasil.

Se houvesse uma nota explicativa e os professores fossem capacitados, a obra poderia contribuir para que fossem discutidas as várias formas de racismo?

Exatamente. O (Siegfried Ellwanger) Castan (1928-2010), um editor nazista do Rio Grande do Sul, é um exemplo ótimo. Ele escreveu livros propagando a revisão do Holocausto, a obra foi apreendida e ele ainda foi parar na cadeia [em 2003, o Supremo Tribunal Federal concluiu que a propagação de ideias discriminatórias ao povo judeu é crime de racismo, condenando Castan por divulgar livros de conteúdo antisemita]. Essa falta de cuidado com a questão racial torna o Brasil um país sui generis, onde mais da metade da população é constituída por afrodescendentes e o negro não consegue avançar. Nós estamos discutindo, levantando a polêmica. Pratica censura quem não quer discutir o racismo evidente existente em Monteiro Lobato.

Em carta ao médico Renato Kehl, Lobato diz que o livro O Choque das Raças (mais tarde renomeado para O Presidente Negro) é um grito de guerra pró-eugenia. Lobato usaria a escrita como uma forma de disseminação de ideias racistas?

Ele diz isso nas cartas. A dissertação da historiadora Pietra Diwan, autora do livro Raça Pura, a História da Eugenia no Mundo, aponta várias cartas de Lobato que foram ignoradas por todos os seus biógrafos. Como é possível ter tanta gente estudando Lobato e esse assunto estar escondido a sete chaves? Isso até a Ana Maria Gonçalves, autora de Um Defeito de Cor, e a Revista Bravo terem publicado essas cartas, em que Lobato confessadamente diz que a literatura é uma forma de praticar eugenia. Não é possível pesquisar Lobato, um dos maiores escritores do país, se esses assuntos estiverem na penumbra.

Como o senhor mesmo disse, Lobato é considerado um dos maiores escritores do nosso país. Nesse sentido, as posições pessoais do autor não deveriam ter importância secundária?

O fato de Lobato ser um escritor importante não quer dizer que não se possa discuti-lo por inteiro. Pode-se e deve-se. É aí que está a verdadeira liberdade democrática e de expressão. Esses literatos que davam apoio aos nazistas também poderiam ser encaminhados para a sala de aula sem contextualização? Então por que essa insistência em não enxergar os resquícios da escravidão? 

Os professores da rede pública não estão capacitados para contextualizar o racismo na literatura?

Eles estariam se o MEC tivesse feito o seu dever de casa e dado cumprimento à Lei 10.639 e à Lei 11.645, que são alterações da LDB e prevêm os estudos obrigatórios da história da África e da cultura afrobrasileira. [Desde o início da vigência da Lei 10.639, em 2003, a temática afrobrasileira se tornou obrigatória nos currículos do ensino fundamental e médio]. A lei vai completar dez anos e o MEC diz que capacitou 69 mil professores. Isso em um universo de 2 milhões, o que é quase nada.

Fonte: Gazeta

 

Anúncios