Tags

, , , ,

Sobre o caso do mendigo branco de olhos claros, apareceram muitas pessoas em vários sítios da internet para dizer que não era uma questão de racismo, mas sim de ‘padrões de beleza’.

Mas como os padrões de beleza são construídos? Penso que todos os padrões sociais (conduta sexual, beleza, etc) são construídos no decorrer do tempo e estão interligados. Não é por mero acaso do destino que o padrão de beleza ‘branco dos olhos azuis’  seja o predominante em nossa sociedade. Tampouco é por mero acaso que no Brasil a maior parte da população carcerária seja formada por negros ou pardos, segundo o levantamento da Pastoral Carcerária. Também não é por mero acaso que a maior parte da riqueza de nosso país está concentrada nas mãos de pessoas brancas. Todos esses fatores revelam que a nossa sociedade foi construída numa profunda e enraizada desigualdade racial que se perpetua em cada padrão socialmente aceito, como o da beleza, que aqui quero ressaltar. Então voltemos a ele, mas para isso, temos também de relembrar a História.

Pessoas negras foram escravizadas. Para justificar a escravidão usava-se todo tipo de subterfúgio: ora era a religião (leiam isso daqui. Sério, leiam), ora era uma suposta inferioridade das pessoas negras. Afinal, se elas forem consideradas como ‘menos humanas’  é mais fácil justificar a conduta atroz adotada. Seria como uma forma de especismo entre humanos.

“E para perpetuar essas idéias também se lançavam mão de todo expediente que servisse ao intuito. Nos EUA tornou-se comum o ‘Blackface‘, espécie de representação cômica onde pessoas brancas usavam maquiagem para fingirem-se negras e, assim caracterizadas, fazerem representações pejorativas da figura negra. Isso era considerado humor.

Opa, ainda é considerada como uma forma válida de humor, para alguns. Veja-se o exemplo da figura ‘Adelaide’ do Zorra Total, claramente ofensiva à mulher negra. Claro que por ocasião dos justos reclamos contra a dita personagem, apareceram aqueles que disseram que não era racismo, mas basta um olhar mais atento e a constatação óbvia da semelhança entre o ‘Blackface’ e o programa citado para constatarmos que há racismo sim.No Blackface, os negros eram retratados como ‘vagabundos’ , ‘simiescos’, ‘larápios’, ‘indolentes’ etc; as mulheres eram retratadas como ‘feias’ , ‘sujas’ ’dominadas por impulsos sexuais’; dizia-se que mulher negra nenhuma seria capaz de atrair a atenção de um homem branco, exceto para fins libidinosos e que se houvesse algum homem branco que cortejasse uma mulher de forma ‘séria’, que a mulher negra deveria ‘agarrar a oportunidade’ e sentir-se feliz, qualquer que fosse o tratamento que recebesse do homem branco, que ‘já havia feito muito’ em tê-la aceito ‘apesar dela ser negra’.

Esse racismo não acabou com a escravidão, nem tampouco com a criminalização do racismo; eles continuam sendo perpetuados por meio do que convenientemente chamamos de ‘padrões de beleza’ ou de ‘humor’.”

Leia mais: http://bulevoador.com.br/2012/10/37966/

Texto de Fatima Tardelli

Fonte: Facebook/Bule Voador