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No primeiro semestre no curso de Farmácia Generalista na Universidade Federal da Bahia, em 2008, a estudante Emily Karle dos Santos Conceição, 23 anos, se surpreendeu com a reação de uma professora.

“Eu estava calada e todo mundo na sala estava conversando. Uma entrou na sala e disse ‘Emily, eu só escuto a sua voz’. Eu respondi dizendo que estava calada. Aí ela me disse ‘sua presença já basta’. Eu nunca esqueci isso”, conta ao Correio Nagô a estudante que é negra e cotista.

Prestes a se formar, Emily relata que a trajetória como cotista em uma das maiores universidades do Nordeste não foi fácil. “Quer dizer que eu calada e ela me dá sermão, dizendo que minha presença já era demais. Esse foi apenas um caso. Tem também muito racismo institucional. Parece que a gente não existe, mas quando a gente demonstra competência as pessoas são obrigadas a nos tolerar”, complementa.

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E foi com o estudo e o esforço que a estudante diz ter mudado a situação. No último dia 18 de outubro, Emily foi agraciada com o “Prêmio Inventor: Ufba Homenageia seus Inventores”. Na divulgação, ela foi anunciada pela assessoria da universidade como “uma dos muitos estudantes cotistas responsáveis pelo sucesso da política de Ações Afirmativas implantadas pela universidade há aproximadamente 10 anos”.

Em sua 4ª Edição, o prêmio faz a homenagem à estudante pelo depósito da patente intitulada “Uso da Amêndoa de Bombacopis retusa, como potencial matéria-prima para fins alimentícios, cosmético, farmacêutico e de obtenção de biodiesel, realizado em 2011.

“O prêmio está relacionado com patentes que tenham viabilidade econômica. A patente que eu desenvolvi está relacionada com a utilização do óleo de uma castanha lá da Chapada Diamantina. O nosso intuito é que as empresas, principalmente de cosméticos e biodisel, possam utilizar essa castanha”, conta.

O objetivo também é valorizar as comunidades da região do semi árido baiano que sofrem com o desmatamento. “Se as empresas quiserem reutilizar, vai ter que plantar mais castanheiras e por causa da desertificação que tem ocorrido terá a valorização da comunidade. O interessante é que a gente não foi lá pegar a castanha. Foi a própria comunidade que indicou para a gente utilizar”, acrescenta.

Estagiária da bolsa do programa Permanecer, no Instituto de Saúde Coletiva (ISC), e moradora do bairro de Mata Escura, Emily destaca a importância da premiação. “Como estudante significou a concretização do trabalho. O permanecer me ajudou bastante. Além disso, esse prêmio demonstrou que o que falta é oportunidade porque nós tivemos oportunidade e fizemos. Minha premiação é apenas um exemplo de como pode ser maior. Se a comunidade negra e pobre tiver oportunidade, aproveita. Se a gente tiver oportunidade de crescer, a gente vai crescer. Não jogamos fora não”, diz a estudante que é filha de um autônomo e de uma cabeleireira.

Para ela, as cotas são um exemplo da oportunidade para crescer. “As cotas possibilitaram que muitos negros e pobres tivessem oportunidade de estudar e mostrar que a gente pode fazer. Quem está com sede quer beber água e não jogar para cima”, ressalta.

“As cotas são um direito de reparação que demorou muito a ocorrer e não um favor. É um direito que foi negado por muito tempo e agora temos possibilidade de tomar nosso lugar que é de direito”, complementa. 

No entanto, Emily destaca que, apesar das cotas, o cenário ainda não se modificou muito na Ufba. “O curso de Farmácia, mesmo com cotas, e as áreas de tecnologia e principalmente médica não mudou panorama. Sou a única negra dos formandos de 2013 do meu curso”, relata. Na opinião das estudantes, os incentivos para que os alunos negros e pobres permaneçam na universidade devem ser ampliados.

Já questionada se sente diferente dos demais por ser cotista, a estudante responde que “o segredo” é mostrar competência. “Eu não me sinto. Logo no inicio, quando a gente chega e toma um baque do professor que diz que só sua presença já basta. Mas depois eu estudei e mostrei competência. Demonstrei responsabilidade e pró-atividade. A partir daí houve melhora. Com relação a academia eles tiveram que literalmente me engolir. A gente tem que se portar.. Não é achar que me deram a cota. Nós conquistamos e temos que demonstrar para que a gente veio”, resume. 

*Por Anderson Sotero

Fonte: Correio Nago

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