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Mpambu Nzila é conceituado hoje entre muitos adeptos do Candomblé como Divindade Senhor dos Caminhos, também conhecido como Pambu Njila entre outros. Mas cabe aqui a explicação da grafia antes de falarmos sobre essa Divindade popularmente conhecida como Nkisi, que a muitos anos foi confundida com o Orixá Exú.

A palavra Mpambu tem a sua origem no Kikongo, cujo significado é Encruzilhada. A palavra Nzila tem a sua origem no Kikongo, mas o seu significado é diferente da palavra Mpambu. O seu significado é Caminho.

A palavra Pambu sem a letra M antecedendo-o tem sua origem no Kimbundu, com o mesmo significado de Mpambu. Já a palavra Njila também tem o mesmo significado de Nzila, mas a sua origem é Kimbundu.

No Kikongo e Kimbundu as palavras que tem os prefixos M e N seguidos de uma outra consoante, são nasaladas, mas entre algumas regiões por conta do sotaque ou melhor pronuncia, é incrementado o I, o A ou a letra U anterior os prefixos M e N ou é totalmente nasaladas, exemplo:

Mpambu = Pambu

Njila = Injila, Unjila ate mesmo Jira, Unjira

No Brasil, Mpambu Nzila ou Pambu Njila foi e continua sendo confundido como Exu, os adeptos por falta de conhecimento relacionado a Mpambu Nzila dentro da cultura banto, adotou muitos conceitos da cultura nagô, principalmente da cultura daomeana. Mas a maior das deturpações se originou entre muitos adeptos em acreditar que Mpambu Nzila fosse o mesmo que um espirito de origem brasileiro denominado como Pomba Gira.

O nome Pomba Gira é conceituado entre os candomblecistas como uma corruptela da palavra Pambu Njila, mas o espirito que responde como Pomba Gira nada tem haver com o Nkisi Pambu Njila. Muito dessas deturpações também se originou por conta do pronunciar determinas palavras ate mesmo no cantar de muitos cânticos nas rodas de Candomblé Angola e Congo, como por exemplo, a palavra Bombo ou Pombo Njila.

Por conta da palavra Pombo que nada tem haver com aves, pode ter originado a palavra Pomba, mas a origem da palavro Pombo é Kikongo sendo a grafia mais correta ser Mpumbu.

A palavra Mpumbu significa território, ou seja, é um território no Reino do Kongo e nada tem haver com Pomba Gira.

Segundo Patrício Batsikama (2010) Mpumbu é o território onde existiu um mercado de escravos com o mesmo topônimo Mpumbu, por conta de a tradição Kongo ser o território que da origem ao mercado, ou seja, Mpumbu-Mercado.

O mercado do Mpumbu também foi um dos muitos mercados de escravos, sendo esse um famoso mercado onde fez ecos dos POMBEIROS como traficantes de escravos.

De acordo com Patrício Batsikama (2010) Kinsâsa encontra-se no Mpumbu, Territorio-Mercado de escravos, cujo topônimo Kinsâsa deriva do verbo nsâsa, mas sendo nsâsa variante que significa educar, elevar, instruir, formar e aprender.

Segundo esse mesmo autor, Patrício Batsikama, explica melhor o significado da palavra Kinsâsa; “Kinsâsa significa literalmente <<lugar da instrução>>, <<sítio da Educação>>, ou seja, onde foi reservado a educação dos escravos, os prisioneiros de guerras, os criminosos, entre outros”(2010: 37).

Como podemos observar em nossas pesquisas, as palavras foram se modificando com o tempo e com o território. Mas podemos concluir que as palavras POMBA GIRA, POMBO NJIRA, BOMBO GIRA ou simplesmente GIRA tem uma historia na raiz banto.

Com relação ao Espirito denominado como Pomba Gira, Espirito esse de origem brasileira, creio ter sido apenas uma má interpretação da palavra Mpambu Nzila que termina com vogal “A” fazendo uma analogia de se tratar de uma Divindade feminina, como não é.

Quando pronunciamos a palavra GIRA relacionada a algum ser sagrado, estamos potencializando-a com o Ngunzu (Força Vital) do centro do Mpambu (Encruzilhada), automaticamente evocando a própria força do espirito através do Njila (Caminho) que vamos percorrer, para nos assegurar de positividade e nunca do negativo, pois o ponto central, a encruzilhada é um ponto neutro, contem a energia positiva e negativa no conceito dos candomblecistas.

Mpambu Nzila para uma porcentagem dos adeptos do Candomblé Angola e Congo é acreditado ser o Nkisi guardião das porteiras, das estradas, das fronteiras e encruzilhadas onde recebe oferendas de reconciliação, agradecimentos e pedidos. Mas para outra porcentagem de adeptos, Mpambu Nzila é apenas o “Caminho da Encruzilhada ou Encruzilhada do Caminho”, sendo a própria Divindade denominada como Ngamba, cujo significado é guardião.

O Ngamba é o guardião das aldeias, comunidades e fronteiras, assim como é regente dos caminhos, vielas e encruzilhadas. É o Ngamba que atua como guardião e mensageiro entre os vivos e os mortos, principalmente entre os Minkisi e Mahamba.

Ngamba é Divindade que não entra em transe em ninguém, não é uma Divindade de iniciar ninguém, é de culto e atua sobre Mpambu Nzila (Caminho da Encruzilhada ou Encruzilhada do Caminho).

Segundo nossas pesquisas no Dicionário Kimbundu-Português de A. de Assis Junior, encontramos a palavra Ngamba com o mesmo sentido para os candomblecistas.

No Dicionário de A. de Assis Junior, “Ngamba” é aquele que transporta cargas, é o carregador, o mensageiro.

Segundo o Tata Tawá (citado por Sergio Adolfo) “quem se encontra em uma encruzilhada é, neste momento, o verdadeiro centro do mundo”.

Como podemos ver e aprendemos nos Candomblés Angola e Congo, muitas das oferendas dedicadas a Ngamba depositamos justamente no centro do mundo. Essa tradição é bastante antiga e antecede o seu uso nos Candomblés Angola e Congo. É praticada no mundo banto como o próprio Tata Tawá diz:

“É nas encruzilhadas, que as mulheres BALUBAS e LULUAS (incumbidas do cuidado das plantações) costumam depositar os primeiros frutos da colheita. Se a cidade estiver ameaçada pela fome, a população inteira se dirige em procissão as encruzilhadas mais próximas a fim de depositar ali oferendas de viveres ou de velhos utensílios domésticos destinadas as almas dos ancestrais. Nas encruzilhada, ainda, é que as mulheres acabam de desmamar um filho, ficando assim dispensadas da proibição costumeira de terem relações sexuais durante o período de aleitamento, sacrificando uma galinha branca as almas das crianças mortas” (COBANTU: 2008).

 

 

Texto escrito por:

Tata Muxiki Kitalehoxi, descendente da Ndanji Goméia.

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