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Tania Pacheco

Já tinha ouvido falar nela. Já tinha visto comentários a seu respeito. Salvo erro, publiquei  até uma nota onde ela era mencionada. A questão é que hoje (felizmente!) recebi dela um link. Era para uma música e, enquanto trabalhava em outra coisa, botei para tocar. E aí parei. Ou melhor: comecei, pois, simplesmente fui clicando uma faixa após a outra, inicialmente me lembrando de Dona Quelé e depois sendo tomada pela força própria de Dona Nicinha de Santo Amaro da Purificação, Bahia. A mesma cidade da contaminação por chumbo; onde nasceram Dona Canô, Maria Bethânia e seu irmão Caetano; e onde existem também o Bembé do Mercado, sobre o qual já escrevi aqui; o às vezes destemperado mas sempre corajoso guerreiro Ney Didãn; e, obrigatória para mim a partir de agora, Dona Nicinha. Dona Nicinha e seus sambas de roda, principalmente!

Como acontece neste País com quem não dispõe de dinheiro ou de padrinhos, o CD lançado por Dona Nicinha é virtual. No máximo, o que conseguiu junto com seus amigos foi um registro em vídeo de pouco mais de um minuto do seu show de lançamento e do site “Samba de Nicinha – Raízes de Santo Amaro”, onde ele está, gravado e editado por Tadeu Mascarenhas para a Plataforma de Lançamento, disponível imediatamente abaixo. Depois, faço questão de postar o caminho para mais músicas de Dona Nicinha e uma reportagem a seu respeito, com informações que não teria sentido repetir aqui. Obrigada, Dona Nicinha, por seu trabalho e por me/nos permitir conhecê-lo!

O CD virtual de Dona Nicinha, seguido de uma reportagem de sobre ela. que pode ser lida ouvindo as faixas:

Músicas

Dona Nicinha e o grupo Raízes de Santo Amaro

Por Katharina Doring

Maria Eunice Martins Luz – mais conhecida como “Nicinha do Samba” na cidade de Santo Amaro do Recôncavo baiano – é uma das mais importantes personagens da história de Santo Amaro e do samba de roda, principalmente pela sua personalidade alegre, descontraída e brincalhona. Nicinha transita desde pequena nos universos da cultura afro-baiana, típicos do Recôncavo: nos terreiros de Candomblé, na Capoeira, no Maculelê, e preferencialmente no Samba de Roda, onde ela se exibe como exímia sambadeira, dona de um requebrado inigualável. Nicinha é a matriarca responsável pela manutenção do grupo de samba de roda Raízes de Santo Amaro, que conta com uma quantidade impressionante de sambadeiras, todas senhoras negras com roupas lindíssimas ao estilo das baianas do candomblé e com aquele sapateado miudinho e o requebrado na cintura que só elas…

“O som forte do atabaque de Tingo interrompe o silêncio. João Batista puxa algum samba antigo. Entram o pandeiro, reco-reco, agogô, tamborim, cento e cinco e maraca. As mulheres já estão em volta, acompanhando o ritmo com tabuinhas de madeira. Então, uma a uma, descalças, elas entram na roda: Nicinha, Elisdércia, Gabriela e as outras. Os primeiros movimentos, lentos, são uma saudação aos presentes. Com o olhar distante, elas se deixam guiar pela música. Com um jeitinho dengoso, inclinam o pescoço, deitam o rosto, rodopiam, tocam no chão, fazem a saia a voar, sacodem os ombros. Os pés, em passos miúdos, não param: ora amassam suavemente o solo, ora sapateiam. Como o corpo está todo relaxado, o arrastar constante dos pés no chão inevitavelmente provoca o famoso “requebrado” dos quadris. No grupo Maculelê e Samba de Roda de Santo Amaro, alguns já passaram dos 60, outros estão na casa dos 20 e há até habilidosas sambadeiras com cinco anos.”[1]

Nicinha, que embora continua vivendo uma vida humilde, pé no chão, na comunidade do Pilar, sabe preservar as amizades de muitos tempos com pessoas ilustres da cultura de Santo Amaro, como a família Veloso, Dona Canô, seus filhos e netos artistas, sem falar da sua longa amizade com o etnomusicólogo Tiago Oliveira Pinto, radicado na Alemanha que pesquisou durante muitos anos com o falecido esposo de Nicinha, o famoso Mestre Vavá da Capoeira e do Maculêlê. Devido a essas amizades, Nicinha teve a oportunidade de levar a cultura popular de matriz africana do Recôncavo para diversos lugares do Brasil e do exterior, tendo realizado apresentações na Europa e nos Estados Unidos ao longo de mais de três décadas. Dona Nicinha que é conhecida também por ser nora do lendário Mestre Popó, que era condutor de trole na profissão, porém se dedicou principalmente a preservação da dança-luta Maculelê, que estava sendo esquecido e formou  o grupo “Maculelê de Santo Amaro” nos anos 50. Seu filho, o Mestre Vavá, marido de Dona Nicinha, se dedicou por sua vez a Capoeira, mas também deu continuidade ao Maculelê imortalizado pelo pai. Nicinha então introduziu o Samba de Roda neste grupo que mais tarde iria se chamar “Raízes do Samba de Santo Amaro”  com mais de 30 integrantes que tocam atabaque, pandeiro, reco-reco, agogô, tamborim, maraca.

“Nicinha conta que o samba-de-roda foi ganhando espaço aos poucos no grupoMaculelê e Samba de Roda de Santo Amaro, que já existe há décadas, com diferentes nomes. “Era só um sambinha depois do maculelê. Aí, a professora Maria Mutti teve a idéia de fazermos um grupo de samba”. O grupo cresceu e hoje “já tem 30, mas deveria ser só 15 pessoas. Se for fazer vontade, Santo Amaro toda é do grupo”, conta ela.”[2]

As sambadeiras são essenciais à manutenção da manifestação do samba de roda, preservando um jeito particular de sambar, nos pés, com movimentos lentos e graciosos – conhecidos ali como “miudinhos” – e que, quando os ritmos do “samba corrido” ou do “samba de viola” começam a acelerar a festa, não perdem sua postura sensual e sutil, expressas por cada mulher de modo singular. As sambadeiras são muitas vezes as “matriarcas” destas comunidades afro-descendentes, preservando e transmitindo as tradições rituais e culinárias dentro dos seus núcleos familiares.

Nas festas populares de Nossa Senhora da Purificação, em 2 de fevereiro, e nas festas do Bembé do Mercado, em 13 de Maio, o Maculelê era apresentado pelos velhos mestres como outras manifestações folclóricas do Recôncavo Baiano. Com o tempo, muitos mestres de Maculelê morreram e esta manifestação foi perdendo adeptos. Formando um modesto grupo com seus filhos, netos e outros negros da Rua da Linha – o “Conjunto de Maculelê de Santo Amaro” – Popó e seus descendentes resgataram esta tradição, e foram os principais responsáveis pela  divulgação internacional do Maculelê junto à Capoeira.

O repertório do CD virtual Samba de Nicinha – Raízes de Santo Amaro inclui principalmente “samba-corridos”, modalidade mais participativa e “festiva” de samba de roda.  Mas também inclui “sambas de viola”, “chulas”, “barraventos”, ladainhas de capoeira e toques de Maculelê, mostrando toda a diversidade musical do contexto cultural em que Nicinha e seu grupo estão inseridos. Demonstram, acima de tudo, a preocupação de Nicinha do Samba em manter vivas, dentro das novas gerações de sambadores e sambadeiras do Recôncavo, algumas das tradições herdadas por seus familiares, tal como o fizeram Popó do Maculelê, e Mestre Vavá de Popó.

http://www.sambadenicinha.com/

Fonte: Combate Racismo Ambiental

 

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