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Pela primeira vez desde sua criação em 1983, a Medalha Mérito Legislativo Câmara dos Deputados foi entregue a uma Yalorixá (sacerdotisa suprema dos candomblés de origem Ketu-iorubá), Beatriz Moreira Costa. Indicada pelo deputado federal Jean Wyllys (PSOl-RJ), Mãe Beata de Iemanjá, como a sacerdotista é conhecida, foi uma das 25 pessoas agraciadas em evento que aconteceu nessa quarta-feira, 21, no Salão Negro do Congresso Nacional.

Segundo o deputado, a indicação de uma líder de comunidade tradicional de terreiro é simbólica, principalmente em tempos aonde o aumento do fundamentalismo religioso vem disseminando o preconceito e a intolerância seja ela por orientação sexual ou crenças religiosas. “Há uma clara discriminação religiosa nesse espaço, que deveria ser laico. Esse reconhecimento é apenas um passo para a valorização dessa comunidade”, diz.

Wyllys espera que a indicação de Mãe Beata para esse prêmio sirva também para incentivar o povo de santo a assumir o orgulho de sua religião, cultura, ritual e vestimentas. “É preciso que o povo de santo, assim como representantes de grupos historicamente discriminados e estigmatizados, saiam dos armários e assumam com orgulho suas crenças, religiões, orientações e maneiras de ser”, afirma o deputado.

Saibam um pouco da vida de Mãe Beata de Iyemonjá

BEATRIZ MOREIRA COSTA

Nascida em 20 de janeiro de 1931, em Cachoeira do Paraguaçu, Recôncavo Baiano, filha de Maria do Carmo e Oscar Moreira, utiliza-se da mãe e do pai como exemplos de vida. 

Sua mãe, mulher negra trabalhadora, mas de saúde frágil, legou à sua filha grande respeito à pessoa humana e seu pai, Oscar, a característica de saber lidar com as ferramentas do trabalho e da vida. 

Na década de 50 Beatriz muda-se para a cidade de Salvador, ficando sob os cuidados de sua tia Felicíssima e seu marido, Anísio Agra Pereira (Anísio de Logum Ede, babalorixá) , na Avenida Ribeiro dos Santos na Sete Portas. Durante dezessete anos, Beata (como é conhecida desde a infância) foi abian de seu tio, que posteriormente falece levando-a a procurar Mãe Olga do Alaketu, que a inicia no candomblé para o orixá Iemanjá no terreiro Ilê Maroia Laji (Alaketu – Salvador). 

Mulher que mesmo presa a princípios tradicionais em razão da influência de uma família patriarcal torna-se de vanguarda ao fazer cursos de teatro amador e participar de grupos folclóricos. Casa-se com Apolinário Costa, seu primeiro namorado, com quem teve quatro filhos, Ivete, Maria das Dores, Adailton e Aderbal Moreira Costa. Sua mãe Maria do Carmo antes de falecer tutela a filha a sua yalorixá, Olga do Alaketu. 

Sem apoio da família consangüínea, é na família-de-santo que encontra acolhimento, a história se repete no sentimento de resistência do quilombo contemporâneo que reconstrói a auto-estima desta mulher negra. 

Para as famílias tradicionais da Bahia da época, mulher separa era mulher de ninguém, ainda mais com quatro filhos. Canta-se um samba, um samba-de-roda baiano que “samba bom é de madrugada, mulher sem homem não vale nada”, por certo não se enquadrava nesse perfil a figura dessa mulher ímpar.

Cria seus filhos com muita dificuldade, porém de modo digno, exercendo várias funções para prover o sustento próprio e dos filhos, como empregada doméstica, costureira, manicure, cabeleireira, pintora e artesã. 

Com todas essas atividades e uma jornada árdua de mulher negra nordestina e separada, estigmas fortes para a época, não esquece seus laços religiosos, atuando em várias comunidades de terreiro no Rio de Janeiro mantendo e preservando sua descendência ancestral religiosa negra. 

Começa a trabalhar como figurante na Rede Globo de Televisão, atividade resultante de contatos já existentes em Salvador, onde participou da novela “Verão Vermelho”, filmada na referida cidade. Logo após, consegue trabalho como costureira na mesma empresa, onde se aposenta e mantêm contatos com amigos até os dias de hoje. 

Entre as décadas de 70 e 80 Biata faz várias viagens a Salvador para cumprir seus deveres religiosos com a Casa de Candomblé na qual foi iniciada, visto que, mesmo atuando religiosamente em casas de parentes religiosos no Rio de Janeiro, seu cordão umbilical estava preso à sua casa matriz, precisava saciar sua sede na fonte. 

Durante este espaço de tempo a yalorixá, Olga do Alaketu, tem importância fundamental em sua vida, aconselhando e acolhendo a filha que lhe foi tutelada pela mãe biológica, a figura da mãe ancestral se faz presente. Ao entregar Biata à Olga, Maria do Carmo dá o sentido de continuidade a figura maternal, a mãe africana que acolhe e sustenta seus filhos, característica ainda hoje preservada nas comunidades religiosas de matriz africana. 

Em 20 de abril de 1985 Mãe Olga do Alaketu vem ao Rio de Janeiro outorgar a sua filha o direito de ser chamada de “Mãe”, mais uma vez o ciclo se repete, o Ilê Omiojuarô (Casa das Águas dos Olhos de Oxóssi) casa em que Mãe Biata passa a ter o cargo de yalorixá. Transmite à comunidade de forma natural toda essa experiência de luta, absorvida facilmente por todos, dando início à participação ativa em discussões sobre questões raciais, sociais e políticas, tendo maior atuação nas questões de gênero, com enfoque principalmente sobre as mulheres negras. 

Assim como Beata recebe de seu pai e de sua mãe ensinamentos de vida, ela consegue propagar á sua comunidade religiosa os mesmos princípios. O Ilê Omiojuarô, comunidade na qual  Mãe Beata é sacerdotisa suprema, atua em diversas frentes sociais: religião e saúde, luta contra qualquer forma de descriminação e contra a intolerância religiosa, cultura da paz, acesso à educação, ações afirmativas, saúde da população negra, movimento de diálogo inter-religioso, direitos humanos, movimento de mulheres negras e movimento negro.

Fonte: Jean Wyllys/ Comunidade Africa Brasil