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Rio de Janeiro – O ex-marinheiro João Cândido foi homenageado in memoriam, quarta-feira (21), com o diploma Zumbi dos Palmares da comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos de Raça, Cor, Etnia, Religião e Procedência Nacional da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro. O diploma foi recebido por seu filho Adalberto Cândido.

Conhecido como Almirante Negro, João Cândido Felisberto, a bordo do encouraçado Minas Gerais, foi o líder da revolta da Chibata, ocorrida no Rio de Janeiro em 1910 contra as sessões de tortura que os marinheiros eram vítimas. Após o motim, a Marinha abole “oficialmente” os castigos físicos, mas João Cândido é expulso da corporação e constantemente perseguido por oficiais, que impedem a continuidade da vida profissional de Cândido como timoneiro ou carregador de embarcações particulares. Ele morre como pescador aos 89 anos, em 1969, no Rio de Janeiro.

Em 2008, o governo Luiz Inácio Lula da Silva sanciona a Lei da Anistia a João Cândido e aos demais participantes da Revolta da Chibata, mas a reparação e a indenização financeira aos familiares são vetadas. Uma estátua em homenagem ao Almirante Negro, muito provavelmente uma das poucas estátuas de personagens negros no país, é erguida na Praça XV de Novembro, a poucos metros da sede da Alerj, palco da atual homenagem.

“Recebo este diploma com alegria. Dia 22 é o aniversário do movimento de 1910, são 102 anos dessa história triste do Brasil. Essa homenagem de agora reergue meu pai e os marinheiros contra esse ato desumano da marinha de guerra”, afirmou Adalberto, escriturário de 73 anos que trabalha na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Potemkin
Para Ledo Ferreira, representante do Movimento Negro, “a Revolta da Chibata, pelo número de navios envolvidos, é mais importante do que a revolta de 1905, na antiga Rússia, com o encouraçado Potemkin”. Segundo Ferreira, a diferença está no respeito histórico. “Na Rússia, o Potemkin ainda está lá, como museu. No Brasil, infelizmente, o Minas Gerais, que foi o palco da glória da nossa luta, foi destruído e depois vendido como ferro-velho. E nenhuma voz se levantou contra isso, passou-se como um ato normal. Muitos que homenageiam o Potemkin, não tiveram ação pelo Minas Gerais. Então é assim que ocorre a invisibilidade do negro na sociedade brasileira, a negação da sua história”.

Em maio deste ano a Transpetro lançou ao mar o petroleiro João Cândido, navio de 274 metros de comprimento com capacidade para transportar um milhão de barris.

Recorte
Das águas para a terra firme, o presidente do sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, Almir Aguiar, também homenageado com o diploma Zumbi dos Palmares, denuncia a invisibilidade dos negros em uma das cenas mais corriqueiras das cidades do país, uma ida a um estabelecimento bancário.

“A categoria bancária tem cerca de 550 mil profissionais, e através de uma pesquisa feita pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos) em função de um Termo de Ajuste de Conduta do Ministério Público, mostrou-se que só 19% desse total são negros. A invisibilidade no setor é muito grande. Hoje entra-se em uma agência bancária e percebe-se que muitas delas não tem um negro, ou uma negra, trabalhando. E quando tem, na maioria das vezes, trabalham em setores de retaguarda, onde não tem atendimento ao público”, disse ele.

Almir revela também que “os negros no nosso setor recebem em média, segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Socioeconômicos), 35% menos do que o trabalhador branco”.

Fazem parte da comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos de Raça, Cor, Etnia, Religião e Procedência Nacional da Alerj os deputados Xandinho (PV), Robson Leite (PT), Átila Nunes (PSL), Ines Pandeló (PT), Luiz Paulo (PSDB), Rosangela Gomes (PRB), Marcos Soares (PSD), Lucinha (PSDB), e Rosenverg Reis (PMDB).

Fonte: Carta Maior

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