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luiza-bairrosSaber como organizar sua comunidade para que ela busque direitos como a posse da terra em que vive, e evitar que ela se esvazie e enfraqueça sua identidade cultural. Conhecer os mecanismos de acesso às políticas públicas e descobrir formas de incentivar atividades de esporte e lazer para a juventude, além da geração de renda e emprego. Estes são os objetivos mais citados entre alguns dos 45 jovens que estiveram participando do curso Formação de Lideranças Quilombolas, promovido pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR).

O conteúdo da formação incorporou questões sobre racismo e questão racial, políticas de promoção da igualdade racial, direitos quilombolas, regularização fundiária e controle social das políticas públicas. As aulas aconteceram em módulos que incluíram os marcos internacionais, principais conceitos correlatos, indicadores sociais, projetos legislativos e legislação nacional. Os quilombolas também tiveram um módulo específico sobre políticas públicas e direitos sociais, econômicos e culturais das comunidades, com informações sobre o Programa Brasil Quilombola (PBQ), da SEPPIR, o Plano Brasil Sem Miséria e Orçamento Público.

O preconceito contra sua origem quilombola foi o que mais motivou o estudante Valdiney Rodrigues Bispo da Silva, 17 anos, a se interessar pela militância. “A gente sofre discriminação até quando vai ao município mais próximo de nossa comunidade, que fica a 22 km. Chamam a gente de kalungueiro. Muitos colegas que saem de lá e vão morar em cidades voltam contando vantagem, desprezando nossa origem. Eles pensam que negar quem eles são é bom. Pura ilusão”, diz ele, que se inscreveu no curso pela Associação Quilombola Kalunga.

A estudante Louriene Ferreira de Castro, também da comunidade Kalunga, 17 anos, relembra a dificuldade de seus pais quando ainda era muito nova. “Eu ainda peguei o tempo da lamparina. Os quilombos vivem muitas dificuldades. Quero aprender como podemos nos organizar para vencer esses obstáculos. Achei muito interessante ouvir as histórias de situações de racismo que os outros quilombolas viveram e compartilharam com a gente durante as aulas, e como são parecidas”, afirmou.

Mais experiente na lida e já ocupando um posto importante como coordenador das unidades quilombolas de Alagoas, o agricultor Manoel Oliveira, 40 anos, relembra que, ao começar sua caminhada, há 22 anos, a grande dificuldade era se entender e se aceitar como quilombola. “Era difícil se assumir quilombola. A ideia dos mais velhos era de que a luta quilombola podia trazer a escravidão de volta. Até hoje ainda existe essa ideia. A gente tenta convencer as pessoas de que não é assim, explicar que vivemos um momento democrático. Por isso é importante o curso de formação, para que os jovens aprendam a lutar pelos seus direitos”.

Para o assessor jurídico da ONG Terra de Direitos e professor do curso, André Barreto, 25 anos, a demanda que tem sido objeto central da formação é a organização da juventude quilombola e a conscientização da história de luta do povo negro no Brasil e da necessidade da luta pela afirmação e efetivação dos direitos quilombolas. “Estamos trabalhando as normas jurídicas que afirmam o direito ao território e regulamentam o processo de titulação, a fim de eles terem esse conhecimento como instrumento para seguir na luta e na construção de um modelo de desenvolvimento popular mais justo e soberano para o Brasil”, afirmou.

A diretora de Políticas das Comunidades Tradicionais da SEPPIR, Bárbara Oliveira, também salientou o papel de qualificação e protagonismo das lideranças jovens. “Essa iniciativa do curso nasceu das próprias comunidades quilombolas e é uma parceria da SEPPIR com a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Aecid), Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq)”, explicou.

Fonte: Seppir

 

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