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Por: Fátima Oliveira

A “SORORIDADE” ENTRE NEGROS E DE GÊNERO SÃO FALÁCIAS

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“Não gosto de fazer unha de preto. Saí de um salão no Rio porque, lá, só fazia unha de preto”. Cochilava. Despertei ao ouvir a frase da manicure Bete (Elizabete da Conceição Vaz Soares) num salão de beleza da avenida Prudente de Morais, bairro Cidade Jardim, do qual sou cliente há cerca de 12 anos. Era 29.11, por volta das 15h. Um susto, pois Bete é preta! Eis trechos do embate.

Sentada ao lado dela, que fazia unhas de uma cliente branca, tive de ouvir das “nojeiras” das unhas de preto, dos pés casquentos, rachados, da sujeira, numa generalização odiosa e falsa. Um protótipo de negação da negritude, a exibição do ódio racial. Sinalizei que a conversa, no mínimo, incomodava: “Bete, você não mora numa terra sem leis; no Brasil, há leis, e o racismo é crime inafiançável. Alguém pode denunciá-la”.

Ela tripudiou, desfiando seus ascos das unhas encravadas, das cutículas e dos cascos duros de
preto! Pensei em sair. Fiquei. Não permitiria ao racismo levar a melhor. Adverti, mais uma vez, que ela poderia ser presa e processada e que eu não era obrigada a ouvir aquilo, pois meu dinheiro vale tanto quanto o de branco, talvez seja mais valioso do que o de muita gente, preta ou branca, porque é ganho honestamente.

Irritadíssima, disse que não falava comigo, logo, eu não tinha de me meter. “Não sou surda; aqui é um lugar público, onde há muita gente sendo obrigada a ouvir impropérios racistas”. Indaguei se ela se assumia como uma preta racista. Respondeu: “Sim, sou mesmo uma preta racista. Sou mesmo!”.

“Então, nunca mais vai fazer minhas unhas”. Disse que tudo bem. E, irada, lançou o desafio-ameaça: “Quero é ver quem vai me denunciar!”

“Eu! Vou denunciá-la por racismo! Todo mundo aqui é testemunha. Não aceito ser vítima do seu ódio racial”.

Ao sair, de pé, diante dela: “Pra não dizer que sou intransigente, dou a chance de se desculpar, pois, para ofensas públicas, só valem desculpas públicas”. Vociferou que não pediria, que não falara comigo, pois eu não era negra, mas morena.

“Oh, eu sou tão preta quanto você, que já comeu muito às custas do meu dinheiro, e eu me beneficiei do seu bom trabalho. Nunca mais vai comer, pois vai fazer unhas agora, se não me pedir desculpas, lá na Nelson Hungria” (não lembrei o nome da penitenciária feminina).

“Vou chamar a polícia, e você sairá algemada daqui”. Ela repisava que não pediria desculpas. A turma do deixa-disso: “Pede desculpas, Bete, ela ficou ofendida”. Retruquei: “Não é que fiquei ofendida; fui ofendida gratuitamente, e estou sendo caridosíssima, dando-lhe oportunidade de se desculpar!”.

De modo meia-boca, pediu desculpas: “Eu estava brincando!”. Diante dela, por telefone, relatei o ocorrido ao dono do salão, frisando que o salão dele iria fechar, pois, pela segunda vez, eu era vítima de práticas racistas ali: a primeira, há mais de dois anos. Outra manicure, a despeito de eu ter horário marcado e ela ter sido avisada três vezes, pelo caixa do salão, de que o horário era meu, fez ouvidos de mercador: atendeu uma cliente, branca, marcada depois de mim! Foi uma prática racista, mas ela, que não é branca, agiu silenciosamente. Não é possível provar!

A “sororidade” entre negros e de gênero são falácias. Agirei para que se cumpra a lei e comuniquei à Coordenadoria Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Belo Horizonte, que tem em mãos fatos suficientes para bancar ações de “tolerância zero contra o racismo” nos salões de beleza belo-horizontinos. Era pra ontem. O racismo é uma abominável fé bandida! E quem cala consente!

Fonte: Geledes

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