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Curitiba/PR – Perplexidade. Esse é o sentimento que a advogada Andréia Cândido Vitor diz continuar tendo no caso da agressão, tortura e humilhações racistas sofridas na madrugada de 24 de novembro do ano passado, ao ser chamada de “negra vadia” por policiais militares que invadiram uma casa no Bairro Alto em perseguição a um rapaz que não parou numa blitz.

Por morar próximo a casa onde ocorreu a invasão e, diante dos gritos desesperados das pessoas, Andréia foi saber o que estava acontecendo e acabou detida e encaminhada a uma viatura da PM. “Eles me deram um tapa no rosto e me xingaram. Advogada, com essa corzinha, sua negra vagabunda, sua preta vadia”, contou, relatando a violência que sofreu.

Segundo ela, no primeiro momento, ficou dividida entre o medo e a fé na Justiça. “Graças ao meu embasamento espiritual, eu tenho enfrentado com muita fé. Porque nunca situação dessas só se pode ter fé ou medo. Não quero que a impunidade prevaleça”, afirmou, em entrevista exclusiva a Afropress.

Tortura e racismo

Os policiais são acusados de tortura e racismo e a violência está sendo apurada em um Inquérito Policial aberto pelo Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (GAECO), do Ministério Público do Paraná, e em sindicância instaurada pela Corregedoria da PM.

Na invasão, 11 pessoas de uma mesma família foram agredidas e presas, inclusive uma senhora de 72 anos. Thaís da Silva, uma garota de 18 anos, que é portadora de necessidades especiais (tem idade mental de 12 anos) e um outro jovem conhecido por “Tuio”, igualmente portador de necessidades especiais, também foram agredidos. “Tuio” chegou a ser arrastado pelas ruas, de acordo com a advogada.

Segundo ela, todas as pessoas que sofreram a violência policial (no total 30 pessoas foram agredidas) ficaram com sequelas. “Todo mundo que passou por isso, não consegue dormir e está sofrendo stress pós-traumático”, contou.

Solidariedade e Desagravo

Andréia, advogada trabalhista há 12 anos, é evangélica da Igreja Batista e recebeu o apoio, primeiro da Igreja e, em seguida, da subsecção paranaense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que tomou à frente do caso.

O advogado Elias Mattar Assad, da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas (Abracrim), foi quem protocolou a denúncia junto ao GAECO e tem acompanhado a investigação.

No início do mês passado, o Conselho Pleno da OAB, em sessão especial, a desagravou publicamente. “A Ordem dos Advogados do Brasil veementemente repudia essa atitude (a violência policial) e exige que tais fatos sejam investigados dentro da legislação e estará vigilante na apuração e punição dos policiais que agiram arbitráriamente, ofendendo as prerrogativas profissionais da advogada e denegrindo a imagem da corporação com esses atos de violência”, diz a Nota divulgada pela entidade. O relator do processo é o conselheiro José Carlos Dias Neto.

Numa audiência pública realizada na Câmara Municipal de Curitiba, o chefe do Primeiro Comando Regional da PM, coronel Ademar Cunha Sobrinho, pediu desculpas públicas, reconhecendo os abusos.

Risco de impunidade

Tanto a sindicância aberta por iniciativa da Corregedoria, quanto o Inquérito instaurado pelo coordenador do GAECO, promotor Leonir Batisti, porém, ainda não foram concluídos. O Inquérito tem prazo previsto para conclusão no dia 03 de fevereiro.

Há sinais, porém, de que enquanto algumas autoridades mostram interesse na investigação, estaria em andamento uma “Operação Abafa”, para garantir a impunidade dos acusados. A maior evidência disso é o fato de que os nomes dos policiais envolvidos nas agressões e na denúncia de racismo e tortura continuam sendo protegidos pelo sigilo.

Segundo a advogada, ao ser chamada para depor, reconheceu pelo menos dois dos agressores, porém, uma policial mulher, que aparece nas imagens era loira (veja a foto) e não foi apresentada para reconhecimento. A advogada também estranha a necessidade de se fazer reconhecimento dos envolvidos “quando as autoridades e o Comando sabem exatamente quem estava de plantão e quem se envolveu na ocorrência, inclusive os que praticaram os abusos”.

Manobras

Também começou a circular um estranho direito de resposta apócrifo, uma vez que não é assumido pelos autores, publicado no auto-denominado “Blog Profissão PM”.  Nele, os fatos são torcidos propositadamente e os seus autores tentam negar a truculência mostrada nas imagens gravadas por vizinhos da casa invadida; chegam a chamar a advogada de “pseudo-vítima”.

Enquanto os nomes dos agressores são protegidos pelo anonimato e a investigação se arrasta, a advogada diz lembrar ainda em choque as cenas de truculência e barbárie de que foi vítima, juntamente como os vizinhos. “Eu não conseguia parar de chorar”, conta ainda assustada.

Apesar de não ter mudado sua rotina, Andréia diz temer represálias dos acusados que, além de não terem sido punidos, continuam nas ruas, inclusive, em serviço no próprio Bairro Alto, onde tudo aconteceu.

Fonte: Afropress

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