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Carla Neves
Do UOL, no Rio

No ar como a Tia Celeste em “O Canto da Sereia”, a atriz e cantora Zezé Motta, de 64 anos, analisou o atual cenário artístico brasileiro em entrevista exclusiva ao UOL. Conhecida por participar ativamente de movimentos sociais – especialmente dos que lutam pelos direitos dos negros e das mulheres –, Zezé comemorou a oportunidade que os negros estão tendo nos dias de hoje na TV.

“Foi uma luta muito grande, mas nós todos estamos felizes e otimistas. Nesses anos todos as coisas estão mudando devagarzinho. A gente está vendo aí negros protagonistas de novelas. Eu mesma já fiz vários papéis importantes”, afirmou.

Zezé – que juntamente com integrantes do Movimento Negro criou o Centro de Informação e Documentação do Artista Negro (Cidan) – lembrou como surgiu seu interesse pela causa negra.

Na época em que atuou no longa “Xica da Silva”, de Cacá Diegues, ela disse que ficava intrigada quando os jornalistas insistiam tanto na questão de uma atriz negra fazer uma protagonista.

“Eu sabia que aquilo incomodava, mas não sabia o que fazer. Tenho muita fé na força da oração. Então comecei a rezar e pensei que precisava fazer algo. Porque a essa altura, antes do filme, já tinha tido um comercial rejeitado por ser negra”, recordou.

Até que um dia, Zezé ligou para um amigo e pediu que a colocasse em uma fotonovela porque estava sem dinheiro. “E ele me disse: ‘querida, não estou autorizado a contratar atores negros’”, disse.

Depois, a atriz levou outro baque ao posar para a capa de uma revista. “Teve uma polêmica. Disseram: ‘se essa capa não vender, cabeças vão rolar’. Era desconfortável, mas quando vi que tinha responsabilidade de fazer alguma coisa por isso, fui atrás”, afirmou.

Zezé contou que um dia abriu o jornal e leu sobre um curso de cultura negra ministrado pela antropóloga Lélia Gonzalez no Parque Lage, no Rio. Após se inscrever na aula, ela afirmou que sua vida mudou. “Na aula inaugural, a Lélia falou: ‘sei por que vocês estão aqui. Então queria passar o seguinte recado para vocês: não temos mais tempo para lamúrias. Temos que arregaçar as mangas e virar esse jogo’. Isso foi fundamental na minha vida. Porque todos os dias acordava e pensava: ‘preciso fazer alguma coisa’”.

A atriz contou que o que mais a incomodava era o fato de o negro nunca ter família nas novelas. “Ele vivia ao redor da família para a qual trabalhava. O curioso é que nos Estados Unidos, por exemplo, que é assumidamente racista, existe uma lei que reserva um percentual de atores negros em cada produção. Se o negro não aparecer durante o filme inteiro, no final ele será o juiz. Pode reparar”, disse, às gargalhadas.

Na ficção, Zezé já é quase uma mãe de santo. É que, com Tia Celeste, ela contabiliza três guias espirituais ao currículo.  A atriz já viveu uma dirigente espiritual na minissérie “Mãe de Santo”, exibida em 1990 na extinta Manchete, e outra em “Porto dos Milagres”, trama exibida em 2001 na Globo.

Em “O Canto da Sereia” – produção baseada na obra homônima de Nelson Motta –, ela interpreta o braço direito de Mãe Marina (Fabiula Nascimento).

“Começo o ano com o pé direito. A Tia Celeste é o que se chama no candomblé de Mãe Pequena. Ela é meio que uma protetora, uma assessora da Mãe de Santo, e tem uma grande responsabilidade, já que cuida de tudo dentro do terreiro. Se fosse no mundo não espiritual, ela seria uma espécie de gerente”, comparou.

Zezé revelou que, ainda este ano, viverá outra mãe de santo no cinema. Ela será Tia Ciata no filme sobre a vida do compositor Pixinguinha, dirigido por Denise Saraceni.

“A Tia Ciata foi uma figura importantíssima na música popular brasileira e ao mesmo tempo ela também era Mãe de Santo. O primeiro samba, que é ‘Pelo Telefone’, do Donga, foi composto no quintal da casa dela, que era onde aconteciam os saraus”, explicou ela, acrescentando que começa a rodar o longa no próximo dia 20.

Afastada da Globo desde 2010 – nesse meio tempo, ela participou da novela “Rebelde”, da Record –, Zezé contou que estava com saudade da emissora. E afirmou que adorou a experiência de trabalhar com novos atores em “O Canto da Sereia”, como Isis Valverde, Camila Morgado e Fabiula Nascimento.

“Acho que é uma geração que, embora esteja mais envolvida com a TV do que com o teatro, está mais atenta. Eles estão sempre se reciclando: fazem aulas de dança, de corpo, de canto. Não eram muitas pessoas da minha geração que se preocupavam em se reciclar”, lembrou.

Se na arte Zezé é do candomblé, na vida real ela se considera “mística”. A atriz contou que já frequentou as mais diversas religiões: estudou em escola kardecista, quase fez Primeira Comunhão na igreja católica e chegou a ser testemunha de Jeová. Atualmente, ela disse que continua buscando sua espiritualidade.

Zezé afirmou que, além de atuar, continua a cantar. “Canto quase todo final de semana em alguma parte do Rio. Sempre digo que me sinto em estado de graça quando estou cantando ou atuando. Só se me colocassem um punhal e dissessem que teria que escolher entre o canto e a representação, escolheria a música (risos)”, disse ela, contando que teve uma época que tentou viver apenas cantando. “Mas não deu. Existe uma coisa que se chama sobrevivência (risos)”, justificou.

Fonte: UOL

 

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