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O secretário municipal da Promoção da Igualdade Racial de São Paulo, Netinho de Paula (PCdoB), que se licenciou da função de vereador para assumir a pasta na administração do prefeito Fernando Haddad (PT), diz que a sociedade paulistana é racista e que pretende criar uma TV para exibir conteúdo feito com “a visão da população negra”.

A nova secretaria, que vai trabalhar de maneira integrada com outras pastas, ainda depende da aprovação dos vereadores da Câmara Municipal para nascer e deve ser votada em plenário após a volta do recesso em fevereiro. Apesar disso, Netinho já tem vários projetos para sua gestão, que pretende focar na mulher e no jovem negro.

“A gente precisa convencer a sociedade paulistana de que ela é racista, ela precisa entender que ela é racista. A partir do momento que ela se assumir como racista, ela pode trabalhar isso, porque a gente perde economicamente, a gente exclui uma sociedade que pode ajudar muito o país”, afirma Netinho, de 42 anos, em entrevista dada ao G1 no fim de dezembro, antes da posse do prefeito.

De acordo com o secretário, o mercado de trabalho é o local em que o negro sente maior discriminação e a pasta vai ter que colocar os dedos em algumas feridas sociais. “Eu costumo dizer que na periferia a gente não discute a questão racial, o problema é quando a gente vem para o Centro, onde estão as empresas e o poder econômico. A minha luta na secretaria é a questão do empoderamento.”

Entre os planos de melhoramento da cidade, Netinho diz que vai criar cursos de qualificação e parcerias com empresas privadas para inserção da população negra no mercado de trabalho em cargos de liderança. “A gente pode fazer um projeto de inclusão verdadeiramente grande em São Paulo, a exemplo do que é a cidade, para ter meninos [jovens negros] nos cargos mais valorizados. A gente não quer fazer qualificação só para garçom. Nada contra, mas acho que a gente pode mais”, declara. Para isso, ele diz que já marcou reuniões com o empresário Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), para debater o assunto.

O secretário diz também que a pasta pretende cuidar de demais minorias excluídas da cidade, como bolivianos, coreanos e outras etnias que sofrem com a desigualdade social. Para ele, o pouco investimento nas questões de igualdade racial contribuiu para o aumento da violência na cidade. Não está descartada a abordagem de temas como a diversidade sexual na secretaria. “Quando se fala de gênero, é natural essa demanda dentro da causa racial”, justifica.

Netinho (Foto: Arte/G1)

Conhecido até hoje pela sua trajetória artística como vocalista do grupo de pagode Negritude Júnior e apresentador de TV, Netinho de Paula diz acreditar que o fato de ser negro contribuiu para sua escolha como secretário da pasta. “Seria demagogo dizer que não, até porque tem muito a ver com a minha luta, com a minha história, de tudo que eu sempre defendi na televisão, na música.” Solteiro e pai de sete filhos (dois adotados), Netinho se envolveu em polêmica e virou notícia após bater na ex-companheira em fevereiro de 2005, a decoradora Sandra Mendes de Figueiredo Crunfli, com quem morava. Ele já disse ter se arrependido das agressões.

Cotas
Netinho, que é a favor da lei de cotas, diz que já conversou com Haddad sobre a implantação do sistema de cotas também no funcionalismo público municipal. Porém, não informa se a proposta será adotada na nova gestão e de que maneira funcionará o sistema.

O secretário filiou-se ao PCdoB em 2006. Dois anos depois, candidatou-se ao cargo de vereador e foi eleito com 84 mil votos. Em 2010, candidatou-se ao Senado, mas acabou derrotado, ficando em terceiro lugar, atrás de Aloísio Nunes (PSDB) e Marta Suplicy (PT). Em 2012, foi pré-candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PCdoB. Apesar de aparecer com 13% de preferência na primeira pesquisa de intenção de votos, Netinho não concorreu ao cargo, pois o partido não conseguiu fazer alianças para conseguir tempo de propaganda na TV. “No início, o Paulinho, que era do PDT, tinha sinalizado que viria com a gente, mas duas semanas depois ele recuou, o que tornou muito difícil a gente defender a nossa candidatura”, conta.

Sem ter como prosseguir com o sonho, concorreu novamente ao cargo de vereador no ano passado e foi reeleito. Em 1º de janeiro deste ano, ele se licenciou da função após ser diplomado para assumir a Secretaria de Igualdade Racial.

Investimentos
Para conseguir concretizar seus projetos, Netinho está articulando parcerias que, segundo ele, vão propiciar investimentos na secretaria. Ele conta que terá uma reunião com Judith Morrison, representante do Banco Mundial, para firmar convênios. “Fiquei muito feliz porque eles [representantes do banco] entendem que uma secretaria em uma cidade como São Paulo pode ter condição de implementar grandes programas.”

A nova secretaria deve ter uma estrutura de 35 a 40 funcionários. No entanto, não foi divulgada a verba disponibilizada. “Vai ser uma secretaria que vai ter um bom potencial para executar programas com orçamento considerável, mas também uma secretaria que vai trabalhar de maneira transversal dialogando com todas as outras secretarias, seja na educação, no transporte, no trabalho, em todos os segmentos”, afirma.

Televisão
Idealizador da TV da Gente, frequência que exibia conteúdo voltado para a população negra, Netinho pretende usar sua experiência como empresário de comunicação e apresentador de TV para criar um canal voltado para os paulistanos, mas com a “visão da população negra”.

“O prefeito tem um compromisso comigo para que a gente possa viabilizar a frequência de um canal para dar visibilidade a todo material cultural nosso, onde a gente possa dialogar com as pessoas e exibir o conteúdo da população negra”, diz. Os recursos para a implantação e funcionamento da emissora podem ter participação da secretaria e de parcerias com empresas privadas.

Turismo
O novo secretário também estuda um turismo étnico na cidade e diz que entrou em contato com entidades negras para definir quais serão os pontos escolhidos. “A gente poder receber, dialogar e mostrar a nossa história na cidade. Isso tem muito a ver com autoestima e com geração de emprego. Estou conversando com o Flavio Dino, presidente da Embratur, para estruturar turismo étnico na cidade”.

Entre os pontos que devem fazer parte do roteiro estão locais em que os escravos moravam e igrejas construídas por negros, como a Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu.

Fonte G1

 

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