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Foto: Alex Curty 537953_10151360059712899_1432722962_n

Maria vou começar perguntando, qual a origem do seu sobrenome?

Meu sobrenome é de origem russa.

Quando e como descobriu a fotografia?

Sempre foi uma paixão, mas resolvi largar tudo e me dedicar a ela há cerca de 3 anos. Eu me formei em História, um curso maravilhoso, que muito influencia a minha fotografia, porém, estava perdida dentro dessa profissão. Cheguei a estudar pra alguns concursos públicos ligados a essa área, mas a fotografia acabou falando mais alto.

O que usa de ferramentas para que suas fotos sejam sempre belas?

Roda do Cais do Valongo (foto que recebeu Menção Honrosa no concurso promovido pelo Centro Latino Americano de Fotografia)

Roda do Cais do Valongo (foto que recebeu Menção Honrosa no concurso promovido pelo Centro Latino Americano de Fotografia)

A melhor ferramenta é o olhar e, quando você ama, se emociona e se identifica com o assunto fotografado são maiores as chances das fotos ficarem legais. Fora isso, o estudo da técnica fotográfica, um equipamento bacana e o domínio de programas de tratamento de imagens também ajudam, mais delimitando o que seu olhar quer mostrar, mas não são os fatores fundamentais para uma boa foto.  Ah, e a prática. Quanto mais se pratica, maior fica a sagacidade para aproveitar o momento certo.

Podemos julgar o fotógrafo como um profissional ou ele é mais um artista?

Roda de Funk promovida pela APAFunk e parceiros na campanha pela revogação da resolução 013 no Cantagalo, favela que teve seu tradicional baile proibido pela UPP de lá.

Roda de Funk promovida pela APAFunk e parceiros na campanha pela revogação da resolução 013 no Cantagalo, favela que teve seu tradicional baile proibido pela UPP de lá.

Acho que as duas coisas quando se opta por viver apenas da fotografia. Mas, nem todo artista é um “artista-cidadão”, como descreve o Poeta Sérgio Vaz em seu “Manifesto da Antropofagia Periférica”: “É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que armado da verdade, por si só exercita a revolução.” Eu busco isso.

Vejo que suas Fotografias estão sempre ligadas a população negra e a periferia, nos conte sobre essa sua relação.

Acho que essa ligação começou em casa, com os valores que aprendi com meus pais, com uma mãe atuante no movimento sindical na década 80. Depois, a faculdade de História, onde aprendi mais sobre esse mundo e conheci pessoas muito interessantes. Uma delas, a antropóloga Adriana Facina, foi quem me convidou para participar, em 2009, da equipe de coordenação do 1º Curso de Formação de Agentes Culturais Populares, que aconteceu na Universidade Federal Fluminense. Esse curso visava estimular a formação e consolidação de redes que articulassem iniciativas culturais desenvolvidas nas favelas, com a intenção de criar condições para a produção e fruição de bens culturais em espaços populares, com base numa lógica inclusiva, respeitando a diversidade e pluralidade da cultura popular. E esse curso, que chegou a sua 4ª edição, foi um divisor de águas, pois foi onde pude vivenciar realidades bem distintas da minha de garota branca, classe média. Então, desse laço afetivo-solidário-inconformado-atuante que se criou entre todos os participantes dessa primeira turma, que surgiu essa relação que se reflete nas minhas fotografias. Elas estão a serviço dos artistas-guerreiros que acreditam na cultura como base de uma transformação social.

No face Book está em comunidades ligadas a pesquisas sobre o Candomblé, qual a sua ligação com religiões afro brasileira?

 Dia de Yemanjá

Dia de Yemanjá

Isso eu não sei explicar. Sou filha de um judeu com uma católica e eles resolveram, de forma muito justa, deixar eu mesma escolher, caso sentisse essa necessidade, a minha religião. O Candomblé sempre me atraiu e me encantou não sei por quê, então, não me considero uma estudiosa do assunto, mas procuro, ao meu modo e no meu tempo, entender um pouco.

No Rio de Janeiro temos opções diversas de natureza, pessoas, culturas e tradições, o que mais te encanta na cidade maravilhosa?

Todas as opções acima, mas nada me encanta mais do que gente de verdade.

Sobre o prêmio Cais do Valongo, pode nos dizer o que é e como foi?

Eu já havia treinado por algum tempo nesse grupo que organiza a Roda do Cais do Valongo, o Kabula. A convite do Mestre Carlão, comecei a fotografar essa Roda que faz parte de um movimento chamado Conexão Carioca de Rodas na Rua, que grosso modo, uniu 5 grupos a partir de uma história antiga e tradicional: as Rodas populares na Rua. O que há de novo nisso? Segundo Mestre Carlão, “a idéia, que surgiu intencionalmente, busca traduzir o que já acontece há muito tempo no Rio de Janeiro, porém decodificando alguns significados sem mudar sua essência. Pretende-se, assim, mover a Capoeira em direção ao futuro, com respeito à dignidade e aos valores de quem sempre preservou os conteúdos tradicionais dessa cultura. Não se trata de um movimento melhor nem pior do que qualquer outro, mas sim, que passa a utilizar as ferramentas disponíveis no mundo moderno e tirar proveito da contemporaneidade de forma positiva e agregadora. As fotografias e as filmagens visam informar e transmitir mensagens a um público que muitas vezes não tem acesso a estas informações, que na maioria das vezes ficam restritas apenas ao próprio meio: os capoeiristas e a capoeira.” 

Então, com o consentimento dos Mestres envolvidos, inscrevi as fotos no concurso promovido pelo Centro Regional para la Salvaguardia del Patrimonio Cultural Inmaterial de América Latina – UNESCO e tivemos a felicidade de ficar em 3º lugar e vocês podem conferir a série completa aqui: http://www.crespial.org/pt/Banco/list/foto/00000000160

Já ganhou outros prêmios? Quais?

Sim. Menção Honrosa recebida pela série fotográfica “Dois de Fevereiro, Dia de Festa no Mar, Dia de Yemanjá”, nesse mesmo concurso promovido pelo Centro Regional para la Salvaguardia del Patrimonio Cultural Inmaterial de América Latina – UNESCO, em 2011, e também recebi Menção Honrosa no Prêmio Latino-Americano de Fotografia, promovido pelo Centro Latino-Americano de Fotografia (2012) com uma fotografia da Roda do Cais do Valongo intitulada “Vem jogar mais Eu”. Além disso, a partir da minha militância na APAFunk (Associação de Profissionais e Amigos do Funk), colaborando com meus registros fotográficos sobre a cultura Funk, fui contemplada, em 2012, no edital da Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro para Criação Artística no Funk com o projeto, cuja exposição fotográfica “Juntos e Misturados” tem abertura prevista para agosto de 2013.

O que você gostaria de fotografar e ainda não concretizou?

Gostaria de viajar mais pelo Brasil e pelo mundo fotografando outras gentes e culturas, mas ainda não tive grana pra isso.

Qual de suas fotos você escolhe para ser eterna?

Impossível escolher. Mas qualquer uma delas que se encaixe naquela definição de arte proposta por Sérgio Vaz em seu “Manifesto da Antropofagia Periférica.” (http://colecionadordepedras1.blogspot.com.br/2010/08/manifesto-da-antropofagia-periferica.html)

Qual a maior dificuldade que um fotógrafo (A) possui nos dias de hoje?

Muita gente reclama da banalização da profissão, com a tecnologia sempre avançando nessa área de equipamentos fotográficos, quando chegamos num ponto onde você programa o equipamento para um modo automático e qualquer apertador de botão se acha fotógrafo. Mas eu acho que isso, da mesma forma que cria dificuldades, disputando mercado, também ajuda a separar o joio do trigo, pois ser um bom fotógrafo vai muito além do ato de apertar o botão.

Acho que o que mais dificulta mesmo são os altos preços dos equipamentos no Brasil que, por conta dos impostos importação, chegam aqui custando quase o dobro do preço, e também o que acontece com outras profissões ligadas à arte, que é a falta de reconhecimento desse artista como um profissional, um trabalhador como qualquer outro. Quantas vezes eu escutei: “vem na minha festa de aniversário, traz sua máquina!” O mesmo acontece com amigos músicos: “venham, tragam seus instrumentos.” Ou, “tire uma fotos dos meus produtos, que coloco seus créditos no meu site de vendas e te ajudo a divulgar o seu trabalho.” Créditos do autor na foto é lei, não é favor que nos fazem. Fotógrafos e outros artistas têm contas pra pagar como todo mundo e isso não é tão difícil de entender.

Vejo que você gosta de ser clicada, mas nos diga o que é mais prazeroso, fotografar ou ser fotografada?

Fotografar.

O que aconselharia para os novos na área fotográfica?

Eu me considero nova na área, mas algo que vem dando certo pra mim é seguir minha emoção e encarar os desafios que aparecem no caminho. Às vezes temos medo de pegar um trabalho por acharmos que não somos capazes, que não daremos conta, isso é normal. Mas sempre, mesmo com medo, aceitei os desafios e dei meu jeito e isso vem me deixando mais confiante, segura e tranquila ao longo do tempo.

 

Este espaço é livre para que você possa deixar seu recado pessoal:

A Roda do Cais do Valongo acontece todo terceiro sábado do mês, no Cais do Valongo – Rua Barão de Tefé s/n, Centro-RJ, das 10:30hs às 14hs.

A APAFunk (Associação de Profissionais e Amigos do Funk) realiza o seu Sarau toda segunda quinta-feira do mês na Ocupação Manuel Congo, Rua Alcindo Guanabara – Cinelândia, Centro-RJ, às 19hs.

Existe uma resolução no Rio de Janeiro, a 013, que está impedindo o lazer, o trabalho e o acesso à cultura, principalmente, proibindo os bailes funk nas favelas com UPP. Para fazer o baile acontecer leiam, informem-se e assinem a petição para revogação da mesma em: http://meurio.org.br/na_atividade/18/assine_embaixo/funk013

Por: Oluandeji