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Para quem esperava um Papa progressista, a igreja católica teve a renuncia de um homem que fez parte do Nazismo, para trazer outro com uma história reacionária.

Por: Oluandeji

 

O cardeal Bergoglio e os trinta anos do golpe na Argentina

12/5/2006

Eis de novo em evidência a Igreja católica da Argentina, uma das mais conservadoras, senão reacionária da América Latina e cuja cumplicidade durante os atrozes anos da ditadura militar, entre 1976 e 1983, escandalizaram o mundo.

 

Quem traz para a superfície a memória daquele período nefasto, cravejado de 30 mil desaparecidos, é Horácio Verbitski, jornalista e escritor argentino que foi nestes 22 anos de democracia um dos mais próximos companheiros das Mães da Praça de Maio.

 

Agora, com Kirchner, o vento mudou e são disse Verbitski “ao menos 200 os militares na prisão” e 1.400 as causas judiciárias pela violação dos direitos humanos. A notícia é do Il Manifesto, 10-5-06.

 

Segundo o Il Manifesto, Verbitski é autor de quinze livros, entre eles O Vôo que relata o testemunho do capitão da marinha Adolfo Scilingo sobre os vôos da morte, nos quais detentos vivos eram jogados dos aviões no Rio da Prata.

 

Agora, Verbitski – afirma o jornal italiano – lança na Itália o seu livro A Ilha do Silêncio no qual desenvolve uma implacável acusação contra o papel da Igreja na ditadura argentina.

 

Em A Ilha do Silêncio, que se lê como um romance de fato e atroz, diz o Il Manifesto, comparecem todos os nomes notáveis da Igreja na Argentina, os cardeais Caggiano, Aramburo e Pimatesta, os bispos e vigários castrenses Tortolo, Bonamin e Grasseli, e o habitual núncio Pio Laghi. Mas também o nome do atual cardeal Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, que poderia ter se tornado o primeiro papa latino-americano no conclave após a morte de Wojtyla, vencido por Ratzinger.

 

De acordo com Il Manifesto, “uma vitória do jesuíta Bergoglio teria sido uma desgraça não menor daquela do pastor alemão”. E Verbitski, segundo o jornal, explica e documenta o porque.

 

Esclarecedor e demolidor, em particular, é o acontecimento dos dois padres jesuítas, Orlando Yorio e Francisco Jalics, que fizeram o erro de trabalhar nas favelas de Buenos Aires e por isto foram traídos e entregues aos militares por Bergoglio (que obviamente nega), diz o jornal a partir de relatos do jornalista.

 

Verbitski contou estes fatos na Universidade de Roma, apresentando o livro, acompanhado pelo vice-reitor Maria Rosalba Stabili e pelo professor Cláudio Tognonato. Eles três e outros inumeráveis participantes falarão hoje e amanhã da “Argentina; trinta anos do golpe. O Exílio na Itália” destaca o Il Manifesto.

 

Bergoglio – “Mentiras e calúnias” na Igreja argentina

Fonte: Unsinos

Em 1995, o jesuíta Francisco Jalics publicou um livro, “Ejercicios de meditación”. Ao narrar seu sequestro, dizia que “muitas pessoas que sustentavam convicções políticas de extrema direita viam com maus olhos nossa presença nas favelas. Interpretavam o fato de que vivêssemos ali como um apoio à guerrilha e se propuseram nos denunciar como terroristas.

Nós sabíamos de onde soprava o vento e quem era o responsável por essas calúnias. Assim, fui falar com a pessoa em questão e lhe expliquei que ele estava jogando com as nossas vidas. O homem me prometeu que faria saber aos militares que não éramos terroristas. Por declarações posteriores de um oficial e 30 documentos aos quais pude ter acesso mais tarde, pudemos comprovar sem lugar a dúvidas que esse homem não cumpriu sua promessa, mas, pelo contrário, havia apresentado uma falsa denúncia aos militares”.

 

Em outra parte do livro, ele acrescenta que essa pessoa tornou “crível a calúnia, valendo-se de sua autoridade” e “testemunhou diante dos oficiais que nos sequestraram que havíamos trabalhado na cena da ação terrorista. Pouco antes, eu havia manifestado a essa pessoa que ele estava jogando com as nossas vidas. Ele devia ter consciência de que nos mandava a uma morte certa com as suas declarações”.

 

A identidade dessa pessoa que é revelada em uma carta que Orlando Yorio escreveu em Roma em novembro de 1977, dirigida ao assistente geral da Companhia de Jesus, padre Moura. Esse texto permite conhecer o resto da história, pelo testemunho direto de uma das vítimas.

 

A reportagem é de Horacio Verbitsky, publicada no jornal Página/12, 10-04-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Nessa recapitulação escrita 18 anos antes que o livro de Jalics, Yorio conta a mesma coisa, mas em vez de “uma pessoa” diz Jorge Mario Bergoglio [cardeal arcebispo de Buenos Aires]. Conta que Jalics falou duas vezes com o provincial, que “se comprometeu a frear os rumores dentro da Companhia e a se adiantar para falar com os membros das Forças Armadas para testemunhar nossa inocência”. Também menciona as críticas que circulavam na Companhia de Jesus contra ele e Jalics: “Fazer orações estranhas, conviver com mulheres, heresias, compromisso com a guerrilha”, semelhantes às que Bergoglio transmitiu à Chancelaria. Yorio não conhecia a existência desse documento, que eu encontrei cinco anos depois de sua morte. Em seu livro, Bergoglio diz o mesmo que lhes transmitia a Jalics e Yorio: que ele não acreditava na veracidade dessas acusações. Por que, então, devia comunicá-las ao governo militar, como prova o documento que se reproduz abaixo?

 

 

Uma boca importante

Quando Bergoglio disse que havia recebido relatórios negativos sobre ele, Yorio falou com os consultados por meio de seu superior. Pelo menos três deles (os sacerdotes Oliva, José Ignacio Vicentini e Juan Carlos Scannone) lhe disseram que não haviam opinado contra ele, mas sim a favor. No clima da Argentina, a acusação de pertencimento à guerrilha em “uma boca importante (como a de um jesuíta) podia significar simplesmente a nossa morte. As forças de extrema direita já haviam metralhado um sacerdote em sua casinha e haviam raptado, torturado e abandonado morto a um outro. Os dois viviam em favelas. Nós havíamos recebido avisos no sentido de nos cuidarmos”, escreveu Yorio ao padre Moura.

Ele acrescenta que Jalics falou não menos do que duas vezes com Bergoglio para fazer com que ele visse o perigo em que essas versões os colocavam. Segundo Yorio, “Bergoglio reconheceu a gravidade do fato e se comprometeu a frear os rumores dentro da Companhia e a falar com membros das Forças Armadas para testemunhar nossa inocência. [Mas como] o provincial não fazia nada para nos defender, começamos a suspeitar de sua honestidade. Estávamos cansados da província e totalmente inseguros”.

Tinham seus motivos. Durante anos, Bergoglio os havia submetido a um fustigamento insidioso, sem assumir de forma aberta as acusações contra ele, que sempre atribuía a outros sacerdotes ou bispos que, uma vez confrontados, o desmentiam. Bergoglio havia lhes garantido uma continuidade de três anos em seu trabalho na vila de Bajo Flores. Mas informou ao arcebispo Juan Carlos Aramburu que estavam ali sem autorização. O aviso lhes chegou por meio de um dos fundadores do Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo e da pastoral “villera”, Rodolfo Ricciardelli, a quem o próprio Aramburu havia contado. Quando Yorio o consultou, Bergoglio lhe disse que Aramburu “era um mentiroso” e que empregava essas “táticas para incomodar a Companhia”.

Ver mais em: http://www.advivo.com.br/blog/antonio-ateu/vaticano-o-papa-da-ditadura-militar-argentina