Tags

, , ,

Os principais jornais e portais de notícias de Minas Gerais divulgaram, durante esta semana, várias notícias sobre a atuação de grupos neonazistas em Belo Horizonte. A massiva divulgação veio, como tem acontecido com certa freqüência, a reboque da repercussão nas redes sociais de uma imagem chocante: um jovem, depois identificado como Antonio Donato Baudson Peret, se deixava fotografar sorrindo enquanto enforcava, com uma corrente, um morador de rua em um ponto nobre de Belo Horizonte, durante o dia. Em meio às reações indignadas que marcaram a rápida divulgação das fotos, surgiram algumas dúvidas honestas com relação à fotografia, baseadas, principalmente na reação indiferente ou, no máximo, pontuadas por um quê de curiosidade das pessoas do entorno.

Digo que a dúvida é honesta pois, se descontarmos o horror estampado no rosto do morador de rua agredido (o semblante marcado pela dor, ou pelo medo, ou pela angústia, ou pelos três sentimentos), tudo mais no cenário fotografado remetia a um idílico sábado à tarde na pracinha da Savassi. Ao fundo, pessoas degustavam um café ou um chope gelado; passantes olhavam de soslaio para a cena com um quê de curiosidade indiferente; uns poucos, munidos de celulares (marca de nossos tempos) exerciam tranquilamente seu afã registral e, até mesmo um dos protagonistas da cena, o jovem Donato, tatuado, com a cabeça raspada, sorria, como se estivesse realmente entretido com algum tipo de invulgar “brincadeira”.

Nazista

Foto: Reprodução/Facebook

Perguntavam, pois, alguns observadores, se a fotografia não teria sido encenada. Acredito fortemente que não. A soma de dois dos elementos da imagem, a corrente no pescoço do morador de rua e as marcas de horror e medo sulcadas em seu semblante, constituem, para meus olhos, indícios bastante fortes de que não se tratava de uma encenação. A esses indícios, vieram a se somar, posteriormente, notícias de agressões verdadeiras, com vítimas, de que Donato teria sido acusado, além de todo um culto explícito à violência e a ideologias de ódio que o rapaz se sentia no direito de publicar em sua página pessoal. Sim, Donato era capaz de protagonizar aquela cena sem que ela fosse uma brincadeira.

A versão da brincadeira foi, ainda, endossada por um amigo de Donato, Marcus Cunha, em entrevista ao jornal O Tempo. Cunha disse, mais ou menos, que se tratava de um exercício didático que, por meio de uma brincadeira, tinha por objetivo advertir as pessoas sobre os malefícios do uso de drogas.

Marcus Cunha é tratado por Donato como “irmão” e aparece em fotografias ao lado do brincalhão e de seu filho pequeno. Em uma delas o menor, com uma cruz de ferro pendurada no pescoço e vestindo uma camisetinha camuflada, parece fazer a saudação nazista. Provavelmente outra brincadeira, já que havia uma criança de nove ou dez anos envolvida. Marcus também compartilha com seu amigo fanfarrão o gosto lúdico por artefatos que remetam ao também brincalhão Terceiro Reich, que, de brincadeira em brincadeira, matou seis milhões de seres humanos. Mas deixemos isso de lado por ora. Sim, pode ser que a fotografia divulgada seja uma encenação, fruto de uma brincadeira.

Criança

Foto: Reprodução/Facebook

Digo isso, pois, a despeito de minhas impressões pessoais sobre a fotografia e seu contexto, creio que se pode abdicar da tão propalada (e realmente importante) imparcialidade e deve-se admitir, ainda que por hipótese, que a fotografia tenha sido mesmo encenada.

Se, de fato, a cena fotografada estiver sendo encenada, como querem as pessoas mais cautelosas e otimistas do que eu, devemos, no entanto, nos perguntar o que, de fato, ela está encenando. Creio que, se nos fizermos essa pergunta, a resposta não será menos preocupante ou adoecida do que a “suposta” agressão. Olho para as pessoas observando a cena ao fundo, tirando fotos ou, simplesmente passando e imagino se não seriam elas os elementos centrais dessa rica co-criação artística, concebida, em fraterna e improvável colaboração por simpatizantes do nazismo e um morador de rua negro. Não, não se trata, como nos informa a modesta versão de Cunha, de uma performance didática: trata-se de um breve tratado fotográfico sobre o preocupante grau de brutalização que hoje é nossa marca social e sobre a indiferença dos brasileiros diante do absurdo.

Minha interpretação é endossada por algumas reações diante da divulgação do genial trabalho artístico. Em meio a manifestações compreensivelmente indignadas nas redes sociais e nos comentários de portais de notícias, apareceram muitas declarações de apoio à “suposta” agressão, dando razão a um “suposto” nazista que agride um homem fragilizado, negro, despolitizado e abandonado por nossas autoridades civis. Se alguns, mais moderados, começavam seus comentários se dizendo avessos à violência para depois cuspirem duas ou três linhas de repúdio aos supostos “crackeiros”, outros pareciam aplaudir de pé e diziam, em letras maiúsculas, que enforcar o morador de rua com uma corrente “foi pouco”. Pouco parece importar a esses comentaristas que o agressor em questão odeie praticamente a totalidade da população brasileira por razões ideológicas e que, em sua ilusão de pureza racial, se julgue pertencente a uma casta superior a cada um de nós. Não parecem perceber os nossos queridos reacionários de sofá que, nesse caso, o “crackeiro” somos todos nós e que o inimigo, na verdade, é o sorridente rapaz careca.

Enquanto muitas pessoas parecem endossar o tortuoso conceito de justiça de Donato, dissemina-se em Belo Horizontee no Brasil uma cultura de ódio extremo e não, não estou falando apenas de neonazistas. Falo de todos aqueles que identificam como um “outro absoluto” os negros, os moradores de rua, os viciados em drogas, os homossexuais, as mulheres e que, nesse exercício, negam a esses seres humanos o direito a uma existência digna (ou mesmo a uma existência física, à vida). Falo também dos verdadeiros protagonistas da fotografia: os observadores indiferentes que julgam que aquela agressão não é com eles, não lhes atinge.

O regime cultivado e admirado por Donato e seus amigos não foi possibilitado apenas por aqueles que, desde o primeiro momento, adotaram a suástica como crença e tábua de salvação e causa central. Foi o egoísmo, a indiferença e o silêncio da maior parte das pessoas que poderia ter se manifestado a tempo e não o fez que, na verdade, serviram para criar condições de possibilidade para a ascensão do nazismo ao poder e, em última análise, para a morte de seis milhões de pessoas. A “encenação” fotografada na Savassi, meus amigos, é sobre isso e remete a uma recriação adaptada da Alemanha de princípios da década de 1930. Vamos assumir que o ódio e a violência são normais apenas por vivermos em uma sociedade em que, infelizmente, esses dois elementos são cotidianos?

Pensemos na humanidade como um todo e em nós, como parte dela para que evitemos novos holocaustos, novos genocídios, novas mortes. Termino citando uma frase de uma das maiores teóricas sobre a banalização do mal e o totalitarismo, Hannah Arendt: “A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é, humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha a existir”.

Nós somos aquele morador de rua, aquele “outro radical”. Vamos agir de acordo.

** Pedro Munhoz (@pedromunhoz5) advogado e historiador.

Fonte: http://www.bhaz.com.br/os-nazistas-de-belo-horizonte-e-a-sociedade-brutalizada/