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Não pensei que iria voltar a tratar da Copa tão cedo. Sinceramente. Só que poucos dias após ter publicado “Ah, que é isso? A Fifa está descontrolada” aconteceu a Revolta das Caxirolas e uma coisa assim não pode passar em brancas nuvens pelo Mexidão. Bem, a essa altura do campeonato quase todo mundo já está nervoso de saber o que é a caxirola, mas não custa fazer um flashback rápido…

Do nada, a Fifa e o Ministério dos Esportes vieram a público apresentar o instrumento musical símbolo da Copa das Confederações e da Copa do Mundo no Brasil. Criação do multi-instrumentista Carlinhos Brown, a caxirola é um chocalho de plástico feito a base de cana-de-açúcar produzida pela Brasken. O músico baiano registrou sua nova obra – contratada não sabe-se como e em quais termos pelo governo – e vendeu os direitos de fabricação e distribuição para a multinacional The Marketing Store. Os valores dessa gigantesca transação não são revelados (o valor de R$ 1,5 bilhão foi estimado aqui e ali), mas o preço sugerido ao torcedor é R$ 29,90.

Daí que logo na estreia oficial do instrumento, domingo passado, 28 de abril, o reformulado Estádio da Fonte Nova viu uma revoada de caxirolas rumo ao gramado. Eram torcedores revoltados do Bahia protestando contra seus dirigentes, enquanto o time perdia para o rival Vitória por 2 a 1. Foi o bastante para o pessoal da grana ficar de orelhas em pé prevendo novas manifestações não-musicais já agora na Copa das Confederações. Bateu um medinho e estão pensando em colocar uma bula para ensinar ao brasileiro como usar o instrumento com responsabilidade.

A torcida do Bahia com uma caxirola na mão é um bicho feroz

É isso que dá pensar só em dinheiro e não nas pessoas que fazem e sustentam o espetáculo. Porque, será mesmo que eles acham que ninguém perceberia que a caxirola não passa de um caxixi de plástico? E que é um completo absurdo privatizar um bem cultural tradicional? Ou então que a caxirola não tem relação alguma com o futebol brasileiro? Só mesmo Galvão Bueno e Tadeu Schmidt, os porta-vozes futebolísticos da Globo, para defenderem tal disparate.

Direto ao ponto, o jornalista José Trajano afirmou durante o programa Linha de Passe (ESPN) que o torcedor tem o direito de jogar a caxirola onde bem entender. Na Copa da África do Sul as vuvuzelas podiam ser (e eram) um inferno para os ouvidos estrangeiros, mas eram genuínas integrantes da cultura do futebol no país. E a caxirola? Até quinze dias atrás ela nem existia! Porque diabos deveríamos aceitar algo imposto por essa dobradinha poder público/iniciativa privada e que provavelmente foi gestado em algum reunião de brainstorm com publicitários de sapatênis?

Mas nada disso me surpreende, na verdade. Agora, o papel de Carlinhos Brown nessa tragicomédia… como é que pode um sujeito assumidamente ligado à cultura popular pegar um instrumento tradicional (alô pessoal da capoeira!), dar um tapinha e registrar como criação sua?! Sou fã de Brown e o defendi em março do ano passado no texto “Quem tem medo de Carlinhos Brown?”, mas prevejo que a chuva de garrafas que tomou na cabeça durante o Rock in Rio em 2001 vai ser pinto perto do tsunami de caxirolas que se avizinha por aí. Olha, a Revolta da Caxirola virou até cordel.

Essa apropriação privada de um instrumento popular é o mais grave desse caso, mais até do que a imposição de um símbolo (o pessoal da grana que se vire com o encalhe das caxirolas). Em texto contundente, o antropólogo Henrique Parra tem uma sugestão para minimizar o absurdo dessa situação: “Se o governo está interessado em criar um símbolo, bem poderia indicá-lo e deixá-lo livre, como são os símbolos, ao invés de transformá-lo em propriedade privada. (…) Diversas fabricantes nacionais poderiam produzi-lo, diversos comerciantes locais poderiam distribuí-lo e aquelas corporações interessadas em fazer o produto circular em “outras esferas” (produtos especializados para consumidores endinheirados) poderiam recolher uma taxa específica cujos recursos poderiam ser destinados ao apoio de milhares de escolas de capoeira e grupos culturais espalhados pelo País”. Isso sim é um Brasil de todos.

Fonte: http://br.noticias.yahoo.com/blogs/mexidao/mais-caxixi-menos-caxirola-191154130.html

caxixiMinha Opinião: Como capoeirista, fico indignado com o golpe na cultura brasileira dado por Carlinhos Brown. É no mínimo plágio e um oportunismo capitalista que nos mata de vergonha, nem vou entrar no mérito do instrumento ser ou não usado na copa e sim ser plagiado pelo cantor, pois o Caxixi de origem Indígena e usado na Capoeira, possui significado e de forma alguma o Carlinhos deveria usa-lo como sua patente.

Nas políticas públicas que envolvem a Capoeira é de interesse social e cultural a sustentabilidade dos mestres que repassam toda essa tradição ancestral em forma de saberes sendo assim digo não à Caxirola e espero que o Ministério do Esporte e da Cultura entrem num acordo digno e resolvam essa falta de respeito às tradições.

 

Por: Oluandeji