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O artista de rua Luciano Almeida Prates foi agredido por seguranças do restaurante Madrepérola, pertencente ao grupo Família Mancini, na Rua Avanhandava, no centro de São Paulo, um endereço famoso frequentado por celebridades e pela elite paulistana.

Por Raphael Tsavkko Garcia e Mariana Parra

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Por volta das 20h do dia 11 de maio, o artista, um jovem negro de 32 anos, estava tocando sua flauta transversal em frente ao restaurante. Ele tocava próximo a frequentadores que sentavam em mesas na calçada até ser abordado por um segurança que pediu para que se retirasse do local, um espaço público, é sempre bom lembrar. Era a primeira vez que ele tocava no local, apesar de realizar suas performances a pelo menos 6 meses.

Tiago Liberatori, que testemunhou a agressão que viria a ocorrer, afirma que o artista concordou em se retirar, mas que pediu antes para usar o banheiro do restaurante, se encaminhando para a porta do estabelecimento enquanto fazia o pedido, mas foi impedido pelo segurança.

Tiago ainda conta que Luciano se virou para se afastar do local, e neste momento foi abordado por outro segurança que o agrediu violentamente com uma “gravata”. Luciano foi arrastado para a frente do prédio que fica imediatamente ao lado do restaurante. Os seguranças derrubaram o rapaz, segurando seus braços para trás, de modo que ele ficou com o rosto no chão. Uma humilhação talvez difícil de imaginar para quem nunca passou por algo assim.

Luciano comentou em entrevista que chegou quase a desmaiar dada a violência da gravata que recebeu e que inclusive vomitou e teve dificuldades para falar, mas fez o possível para gritar por ajuda enquanto era agredido e mesmo depois da agressão, para reclamar da injustiça sofrida e sobre sua flauta, que foi quebrada pelos seguranças.

Em seguida, ele conta, uma viatura da Polícia Militar apareceu no local e, possivelmente ouvindo seus gritos, se aproximou. Ao invés de auxiliá-lo e ouvi-lo, passaram a revistá-lo e o colocaram contra o portão do prédio.

Tiago acrescentou que enquanto Luciano era agredido ao menos três pessoas se adiantaram e tentaram conter os seguranças que finalmente o soltaram. Uma dessas pessoas foi o vendedor Rubens Carlotto, que estava sentado com amigos no Bar Marokita, também na rua Avanhandava quando viu Luciano “ser arrastado de forma absurda pelos seguranças”.

Segundo Rubens, o rapaz gritava indignado “o que foi que eu fiz” enquanto era arrastado para ser então jogado no chão pelos seguranças, onde um deles o agrediu com chutes. Ao presenciar a cena, ele e seus amigos interpelaram os seguranças que apenas interromperam a agressão com a chegada do chefe de segurança do local.

Luciano conta que, após a agressão e a chegada da PM foi tentar fazer o Boletim de Ocorrência (BO) no 78º DP, na Rua Estados Unidos, foi tratado com agressividade pelo delegado de plantão, que não teria levado em conta sua versão e ainda teria gritado com ele.

Luciano afirmou que “com muito custo registraram que eu fui a vítima da ocorrência”.

 Rubens confirmou esta impressão, e acrescentou que foram para a delegacia o chefe de segurança da Família Mancini e outro segurança que não participou da agressão. Ou seja, os agressores, que segundo a lei, deveriam responder pelos seus atos, não foram levados para a delegacia.

No fim, Luciano se recusou a assinar o BO ao ouvir do delegado que “o seguranças falam o que querem” e de não ter sua versão considerada relevante. Foram também como testemunhas da agressão Tiago Liberatori e seu companheiro, além de Rubens Carlotto e seu colega Rui Junqueira Alves.

Após o BO, Luciano se dirigiu ao IML (Instituto Médico Legal) para o exame de corpo delito, no qual consta que ele sofreu uma “lesão leve”, o que ele contesta. O médico que o atendeu sequer examinou o local da lesão, e ainda afirmou que o IML não teria equipamentos necessários para um exame mais detalhado.

Após o mau atendimento recebido no IML, Luciano se dirigiu ao Hospital das Clínicas, onde lhe receitaram um analgésico e registraram na ficha média que ele havia sofrido uma “tentativa de estrangulamento”.

Este relato revoltante é apenas mais um, de vítimas da cidade, do racismo, do preconceito de classe, cor e mesmo contra quem se aventura a mostrar sua arte nas ruas de São Paulo.

Do lado da Família Mancini, o gerente do Madrepérola, Luis Carlos Ricardi, afirmou que Luciano estaria “bebendo ou procurando encrenca”, “totalmente alterado” e “cheirado”, e que teria provocado e começado a discutir com frequentadores do bar ao ponto de querer “brigar com um rapaz em uma mesa” ao insultar sua namorada.

Ele teria sido convidado a sair por seguranças sem, no entanto, emprego de qualquer tipo de violência física, apesar de, afirmou Ricardi, tê-lo insultado e a outros frequentadores e de estar atrapalhando um show musical em um dos bares próximos.

Os seguranças teriam, segundo o gerente, apenas conversado com o rapaz, que estaria “alterado”, para expulsá-lo do espaço público privatizado pelo restaurante.

As declarações de Ricardi, no entanto, batem de frente não apenas com o relato do artista, mas também com os depoimentos das demais testemunhas. Porque razão afinal, eles iriam até a delegacia denunciar uma agressão inexistente?

Esta agressão covarde sem dúvida contou com a conivência do restaurante, de seguranças e com o descaso da polícia e do IML. Apenas mais um relato de violência claramente baseada no racismo, tão presente no dia a dia do nosso país, onde a vítima, além de tudo, foi tratada pelas forças de segurança como infrator, numa clara inversão de valores. Mais uma prova do racismo institucional presente nas forças policiais do nosso país.

O claro despreparo dos policiais para lidar com um caso de violência contra um jovem negro mostra que esta corporação funciona, via de regra, para defender apenas o patrimônio e manter o status quo de uma sociedade extremamente desigual. A vítima, ao invés de encontrar justiça e proteção de seus direitos, apenas vivenciou mais violência e desrespeito ao lidar com agentes policiais. Este parece ser um dos últimos bastiões em que o Estado Democrático de Direito simplesmente ainda não se consolidou em nosso país.

Este caso, entre tantos outros que ocorrem no país, por sorte contou com testemunhas, que se disponibilizaram a dar sua versão na polícia, onde sequer foram ouvidas pelo delegado, que quis apenas registrar seus nomes como “testemunhas”. Por sorte também quiseram dar sua versão nesta notícia, para que mais um caso de violência claramente baseada no racismo não fosse simplesmente esquecido e engolido pela vítima.

Fonte: Geledes