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Lucas Fier – Esperança Crítica

Em primeiro lugar eu creio que seja importante ressaltar que, seja como for, estas mobilizações que estão tomando conta do país são muito importantes e positivas: elas são a erupção de uma insatisfação generalizada e fazem parte de um aprendizado político do qual, esperamos, leve à coisas maiores e mais concretas. No entanto é preciso ter uma visão crítica com relação ao movimento e principalmente aos rumos que ele está tomando, ao invés da visão ingênua que aparentemente predomina no imaginário popular. Expresso aqui apenas uma opinião.

Os mais entusiastas estão falando em “revolução” ou “primavera brasileira”. Uma grande ingenuidade: de fato os mais entusiasmados são os que não entendem tanto assim de política para saber que ainda não se pode falar em revolução. Claro que eu desejaria que isso fosse verdade, mas não é, e dependendo do rumo que tome, pode ser o oposto disso! Vou tentar explicar.

As manifestações surgiram com a iniciativa do Movimento Passe Livre de protestar contra o aumento da tarifa. Ela possuía uma pauta específica. A violência da polícia, que desta vez não pôde ser escondida das pessoas graças filmagens que se espalharam pela internet, chocou as pessoas. Lembremos que a polícia, sobretudo a de São Paulo, age ainda mais violentamente nas periferias. Foi necessário que jovens de classe média apanhassem para gerar tal indignação. Enfim, aconteceu que a repressão representou grande inabilidade política de Alckmin e Haddad, que transformaram as mobilizações em algo muito maior e mais perigoso para eles, quando podiam ter deixado a manifestação em paz e possivelmente tê-la feito esfacelar-se com o tempo.

As fileiras destas manifestações foram então preenchidas por diversas juventudes, de diversas orientações políticas, e sobretudo, ao que parece, de uma classe média que antes não participava nem se ligava muito à política de maneira geral. Orgulhosos de finalmente saírem da internet, levaram sua indignação às ruas, com suas próprias pautas e reivindicações. O que está havendo é, na verdade, uma catarse.

Enquanto houve uma espécie de politização destas pessoas, houve também uma despolitização do movimento, mas não na mesma proporção. As manifestações perderam, de maneira geral, suas pautas específicas, muitas vezes apelando à objetivos abstratos como o combate à corrupção que não tem eficácia prática, entre muitas outras coisas mal planejadas. Sim, temos pautas importantes, como a não implantação de PEC 37, por exemplo, que é uma ótima pauta em minha opinião.

Para ajudar, não apenas os partidos, mas também a mídia, estão tentando cooptar o movimento. Tanto o governo quando a imprensa oficial tinham um discurso condenatório em relação às manifestações. Agora, com as proporções que ele tomou, mudaram de discurso. A própria presidenta anunciou na terça-feira que “o Brasil hoje acordou mais forte”. Agora até a Globo está apoiando. E eles estão, propositalmente, despolitizando os atos, mudando-lhes o foco. Focando no combate à corrupção, por exemplo, na tentativa de transformar a manifestação numa grande marcha anti-PT, por exemplo, pra pôr outras siglas que lhe interessem mais.
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O grande problema nisso é que essas pessoas são levadas a acharem que se pode resolver os problemas desse país simplesmente trocando os governantes que lá estão por outros, sem questionar a forma de fazer política. Como se bastasse retirar os corruptos do poder e tudo estaria resolvido. E assim a imprensa oficial pode conseguir utilizar este povo como massa de manobra, dando um tom cada vez mais conservador aos protestos. Tem até militar querendo propagandear a mobilização das forças armadas, em outras palavras, golpe de Estado. E o risco é que isso pode seduzir esta juventude despolitizada entusiasmada.

Por outro lado, tudo isso oferece perspectivas. Sabemos que este movimento, de agora, não tem organização nem radicalidade suficiente para atender a maiorias das suas reivindicações, a não ser talvez a redução da tarifa. Mas esperamos que isso protagonize algo maior, e que seja o início de um novo hábito político, de pessoas que vão às ruas. A politização de um movimento (que no caso já não é mais apenas do passe livre) e também o das pessoas só se constrói num processo que geralmente é lento. Estas são as perspectivas otimistas, sendo realista. Será que metade destes jovens estarão dispostos a levarem esta luta até o fim, seja lá qual for? Ou se debandarão quando passar o calor do momento?

fonte; http://racismoambiental.net.br/2013/06/sobre-a-despolitizacao-das-atuais-manifestacoes/