A História de uma das mais antigas Casas Banto: Bate-Folha

PARTE 3

Origem do Bate-Folha da Bahia

No ano de 1881, em Salvador – BA, nasce Manuel Bernardino da Paixão. Em 1919, Bernardino iniciou-se na Nação do Kongo, pelas mãos do Muxikongo (designação das pessoas naturais do Kongo), Manuel Nkosi, sacerdote iniciado na África.

E sua dijina era Ampumandezu. Quando Manuel Nkosi kufou (morreu), Bernardino procurou sua amiga Maria Genoveva do Bonfim – Mam’etu Tuhenda Nzambi, do Tumba Nsi (outra importante raiz de Candomblé de Angola) que era mais conhecida como Maria Neném. Foi com ela, que Bernardino ti­rou a Maku-a-Mvumbi (Mão do Morto), pois não havia outras casas de culto Kongo em Salvador. Como o culto de Angola possui muitas diretrizes do Kongo, acredita-se que ele tenha escolhido o Tumba Nsi por este motivo.

Maria Neném era filha-de-santo de Roberto Barros Reis, escravo angolano, de propriedade da família Barros Reis, que lhe emprestou o nome pelo qual era conhecido.

A cerimônia de Maku-a-Mvumbi, a qual Bernardino se submeteu, coincidiu com a iniciação de Manoel Ciriaco de Jesus, nascido em 08 de agosto de 1892, também na Bahia. A partir daí, Bernardino e Ciriaco se tornaram amigos. Ciriaco, anos mais tarde, após o falecimento de seu irmão-de-santo mais velho, Manuel Kambambi, que na época tinha casa aberta na Bahia, o sucedeu no terreiro que hoje é conhecido por Tumba Juncara (outra importante raiz de Candomblé de Angola).

Com o passar do tempo, Bernardino já muito famoso, fundou o Inzo Manzo Bandukenké (Bate-Folha), situado na Mata Escura, em Salvador, Bahia.

O terreno onde está estabelecido o Candomblé, é cercado de árvores centenárias e considerado o maior Terreiro do Brasil que, na época, foi presenteado à Bamburusema (lansã), seu segundo mukixi, já que o primeiro era gamgainbanda (Oxalá velho).

Logo, pelas origens de Manuel Nkosi, o Bate-Folha é Kongo e, mantém o Angola, por parte de Maria Neném.

No dia 04 de dezembro de 1929, Bernardino tirou seu primeiro barco, cujo Rianga (1º Filho da casa), foi João Correia de Mello, que também era de Lemba (Oxalá novo).

Tat’etu Ampumandezu iniciou cinco barcos: quatro na Mata-Escura e um na casa da filha. Nesses cinco barcos ele só fez dois filhos-de-santo homens: João Correia de Mello (João Lessenge), que foi o primeiro e Bandanguame, do segundo barco.

O Bate-Folha do Rio de Janeiro

Por volta de 1938, João Correia de Mello, conhecido como João Lessenge (Lessengue), mudou-se para o Rio de Janeiro.

Ao chegar, Lessenge foi morar na Rua Navarro, no Catumbi. Trouxe em sua companhia, alguns irmãos de santo, Mãe Ngukui, chegou mais tarde em 1952 

João Lessenge conheceu outras pessoas de santo, em sua maioria oriundas da Bahia, passando então a participar dos rituais das diversas casas de Candomblé, já existentes na cidade. Teve como grande amigo e conselheiro, pai pequeno Virgílio Angorense, daí houve uma grande afinidade e algumas liturgias assimiladas do Jeje.

No início dos anos 40, Lessenge comprou um terreno com aproximadamente 5.000 metros quadrados, no bairro Anchieta, fundando ali, o Inzo Kupapa Unsaba, mais conhecido como Bate-Folha do Rio de Janeiro.

Quando Bernardino faleceu, Tat’etu Lessenge foi escolhido para assumir a casa, o Manzo Bandukenké, mas ele já havia fundado sua casa no Rio de Janeiro e não pode assumir a responsabilidade, que foi passada a Bandanguamê, que era de Kavungo.

O terreiro de Salvador é Bate-Folha, porque o nome da fazenda que Tat’etu Ampumandezu comprou para fixar a roça, tinha esse nome. Já no Rio de Janeiro, Tat’etu Lessenge quis colocar um nome que desse referência a casa onde foi iniciado e ficou Bate-Folha também.

João Lessenge tirou doze barcos, sendo o primeiro em 26 de novembro de 1944, e o último em 08 de novembro de 1969.

No dia 29 de setembro de 1970, às 23:40h, morre João Lessenge, o senhor do Bonfim de Anchieta.

Após o falecimento de Tat’etu Lessenge, em 1970, o Bate-Folha do Rio de Janeiro atravessou um prolongado luto.

Somente em 1972, em ocasião de Luvaiu (Cerimônia de Sucessão), que o Bate-Folha do Rio de Janeiro reabriu, sendo ali investida, no cargo como Mam’etu riá Nkisi (Sacerdote Chefe), sua sobrinha e filha-de-santo, Mabeji – Floripes Correia da Silva Gomes, tornando-se, herdeira de seu tio Lessenge.

Mam’etu Mabeji, baiana do bairro da Liberdade, chegou ao Rio de Janeiro para residir com o seu tio João Lessenge em 19 de outubro de 1946 e iniciou-se no Candomblé em 20 de abril de 1947. Está à frente do Inzo Kupapa Unsaba, há 34 anos, promovendo e preservando os ritos bantus e kongo, de um modo magistral.

Kigua ao povo do Bate-Folha, à Mam’etu Mabeji. Kigua, também, àqueles que com carinho e seriedade, contribuíram para a preservação dos ritos que começaram a ser disseminados ou com Tat’etu Ampumandezu e Tat’etu Lessenge.

A Tat’etu Paulo Mutaua, Mam’etu Sissime, Mametu Sambadiamongo, Mam’etu Kilu e tantos outros, que já não estão mais conosco.

E kigua aos que ainda mantém acesa a chama do Angola/Kongo, Mam’etu Maza Kessy, Mam’etu Ofalamim. E tantos outros que seria quase impossível citá-los, dado o tamanho que esta família se tornou.

Falar sobre essa raiz é falar sobre a história do Candomblé no Brasil.

Esta Ndanji (raiz) inestimável, não sentiu a necessidade de “aportuguesar” as cantigas. Sempre procurou se aprofundar no culto, e talvez por isso aqui houve essa ketualização que ocorre em algumas casas.

Fonte: Valter Rodrigues – Pesquisador de Estudos Afro-Bantus

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36 opiniões sobre “A História de uma das mais antigas Casas Banto: Bate-Folha”

  1. Sirlei De Souza disse:

    Boa tarde a todos meu nome é Sirlei fui iniciado em 2002 com oya bure de yansa residente em cabuçu rio de janeiro .filha de jorge marabo raiz de muxikongo gostaria de saber mais sobre minha raiz .meu e-mail . Sirleidesouza33@gmail.com se poderem me mandar agradeço a bênção aos mais velhos e mais novos

  2. Gostaria de saber se existe algum problema no site pois só abre as fotos.

  3. Linda história do bate folha, porém , qual a tradução da palavra Ketualização ?

  4. Márcia Regina Santos disse:

    B noite. Gostaria de parabenizar pela iniciativa. Infelizmente, ñ estou conseguindo visualizar o texto do post. As fotos estão bem visiveis. Agradeceria se verificasse se há algum problema.
    Atenciosamente,
    Márcia Regina Santos.

  5. Carlos Magio disse:

    Joselito Tata Taua, Manzo Nkisi Mussanbu.
    Rua Alta, 13 vila Artem, Carapicuíba – SP
    Associação Beneficente Cultural Manzo Nkisi Mussanbu.
    Segue os dados de quem pode lhe fornecer e dar mais informações.

  6. Sonia Bueno disse:

    Frequentei e dei algumas obrigações por anos na casa de Odília no RJ, conhecida tb como Molunderí, filha de Ciriáco. Gostaria de maiores informações, mas fui “feita no santo” por Esmeralda, conhecida por Lumbandoaci, filha de Percília, (Ilhéus/BA) conhecida como Malungo Monako. Gostaria de informações tb a respeito. Quero conhecer minhas origens

  7. Roberto Rodrigues disse:

    Tenho imenso prazer de fazer parte dessa numerosa família da Nação Ketu. Quando o Ilê Axé Opô Afonjá foi tombado através do árduo trabalho do meu Irmão Ogã Fernando Coelho, que na ocasião era diretor do Iphan. Os Ogãs do Terreiro presente, tiveram que dar depoimentos sobre esse histórico momento e deixei registrado que outros Terreiros deveriam também ser tombados e dessa forma o Bate Folha fosse o próximo. Um Axé para todos meus irmãos do Terreiro do Bate Folha. Um Axé para a Guerreira filha Cléo Martins.

  8. Luiz Fernando disse:

    Boa tarde
    Queria saber mais sobre mais de angola banto porquê sou de angola banto se vocês poderem me mandar por E-mail
    Nandinho.fernando58@gmail.com

  9. Jokasta Marques disse:

    Boa Noite , eu preciso do endereço e telefone de um axé banto , emcarapicuiba , faz miuto tempo que fiu visitar , mas não me lembro como chegar até lá , sei que lá é igual a um sitio e muito bonito . por favor eu espero resposta obrigado .

    • Carlos Magio disse:

      Joselito Tata Taua, Manzo Nkisi Mussanbu.
      Rua Alta, 13 vila Artem, Carapicuíba – SP
      Associação Beneficente Cultural Manzo Nkisi Mussanbu.
      Obs: Não um sítio, mas para o Nkisi e muito mais do que uma fazenda com todos os elementos da Natureza.

  10. sunshine disse:

    Olá! Gostei muito da matéria. Alguém saberia me dizer se nesse terreiro é possível fazer consulta aos búzios? E, se sim, qual seria o telefone para marcar? Muito obrigada 🙂

  11. manoel disse:

    Aproveitando a oportunidade gostaria de saber sua opinião sobre a questão do aportuguesamento dos cânticos sacros presentes em muitos templos religiosos da nação angola-congo. No meu entendimento entendo ser consequência da primazia dos escravos bantos no Brasil, que ao longo dos anos associariam aos seus costumes particularidades dessa nova realidade vivenciada, entre eles a Língua Portuguesa. Ao analisarmos com mais atenção esses cantares aportuguesados perceberemos haver neles referências a diversos fatos históricos, tradições culturais dessas terras e impressões dos próprios negros em relação ao que viam e entendiam.
    Sendo assim não poderiam estar indicando ter havido além desses templos citados no texto outros muito mais antigos que ainda não foram levantados ?

  12. manoel disse:

    Não entendi porque o texto inicia-se com “parte 3”, há continuidade do mesmo ?

  13. Dulce Santoro disse:

    Boa noite, em primeiro lugar parabens pelo belo trabalho.
    Gostaria de saber se vocês conhecem um babalorixa antigo da nação angola em Salvador de nome Enoque (Cardoso), e se onde encontro mais informações sobre esta raiz. Obrigada

    • Isaura Oliveira disse:

      Meu nome e’ Isaura Oliveira, eu também estou buscando informações sobre pai de santo ENOQUE CARDOSO teve terreiro na antiga vila de Cabeças, hoje chamado de município Governador Mangabeira. Parece q familia dele era “negro da costa”, Candomblé nações Gege e Angola com Ijexá, assim ouvi. Alguém pode ajudar????

  14. marlon disse:

    muito bom gostei

  15. rubens santos disse:

    BOM gostei da linda Historia e sobre a casa na mata escura em salvador, permanece aberta pretendo visita-la ass rubens santos.

  16. kissikarongombe Inajilomin ty Loango disse:

    Muito linda a estória da casa de bate folha, já visitei e assisti um cambomblé, sou apaixonado pela maneira como elesde cuidam e veneram os orixás. A unica coisa que me entristesse é que eu não consigo aprender nada com eles pois são muitos fechados, será que estou errado, axé!

    • KKKKKKKKKKKKKKKK, meu irmão, sou filho desta humilde casa, não somos tão fechados, somos reservados, retorne sempre que puder, será um prazer tê-lo conosco.

  17. Jorge Luiz disse:

    Olá meu irmãos da Nação Angola.. Sou Nsika ia Ngoma Filho de OiáTambaleci neto de Mameto Sinavurú.. Queria parabenizar o site pela matéria..

    Anga kifa kyetu mwenyu w’etu! (E nossa cultura é nossa alma!)

    Sukula mbutu Ngola ni Kongo! (Avante nação Angola e Congo!)

  18. Zanzibá disse:

    Rua Edgar Barbosa 26 – Anchieta – RJ

  19. gostei muito das postagens, sou de ketu mas apaixonado pelo angola

  20. so faltou fala do Bate Folhinha de Mametu Oloia

  21. veronica disse:

    sou pesquisadora da cultura banto gostaria do endereço da casa de bate folha de anchieta

  22. Gostei da matéria mas só queria ratificar que nunca existiu nenhuma Mam’etu Kilu no Bate Folha.

  23. Mokuiu!
    Moro na Brasilândia, perto da freguesia do Ó! (SP capital)
    Gostaria de saber se vocês conhecem alguma casa de angola por são paulo para que eu possa seguir.
    obrigada e muito Axè!
    thaisnn@hotmail.com

  24. KAIADEUI- EKEDJI DE OYA disse:

    É muito lindo ver a história e a mensagem que nossa religião transmite com tanto amor. Mesmo rodeada de preconceitos, nós, que amamos o candamblé e o axé bate folha temos que cuidar e preservar os ritos e rituais ensinados por nossos ancestrais.

  25. LINDA MESMA A HISTORIA DO NOSSO “ANGOLA” AMO ESTA MINHA LINDA NAÇÃO, PENA QUE MUITO NOS DIAS DE HOJE NÃO MANTEM A TRADIÇÕES E HIERARQUIA DENTRO DO SANTÉ, MEU ZELADOR “FLORINDO DE XANGÔ” DIJINA DE MUÍZAGÃN QUE DESCANSOU E FOI A OLORUN, SEMPRE DIZIA DAS VELHAS TRADIÇÕES DO NOSSO ANGOLA MUXIKONGO, E O AXÉ DE BATE-FOLHAS ELE CONHECIA MUITO BEM DEVIDO A SUA CONVIVÊNCIA EM SALVADOR, ELE FLORINDO FILHO DE ABAÍLO DO BAIRRO DE BROTAS, PERCORRIA OS CANDOMBLÉS DE SALVADOR, E SEMPRE NOS FALAVA DESTA LINDA CASA. AXÉ AO NOSSO ANGOLA.
    ATT.
    ALANDEGI – OGÃ DE XANGÔ

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