De Racismo a Feitiçaria, goleiro ex-Fla passa por aventuras na África do Sul

Rosivalda dos Santos Barreto[1]

A princípio informarei que o título desse escrito não é de minha autoria e sim de uma manchete do Globo Esporte disponível na internet[2]. O objetivo do texto é mostrar que quando nos colocamos diante da cultura alheia com a mentalidade ocidentalizada, alienada e racista, intuindo de que a nossa é melhor, corremos o risco de cometer erros grotescos como o do jogador Getúlio Vargas. O que fica explícito na fala do jogador é uma mentalidade alienada e racista subconsciente antinegro e anti-africana. Escreverei fazendo uma análise breve a partir da fala do jogador e do redator da coluna.

A matéria é sobre esporte, mas quando pensei em escrever sobre ela foi para explicitar que o racismo brasileiro se manifesta em todas as coisas e lugares. Vejamos o título da matéria: De racismo a feitiçaria, goleiro ex-Fla passa por aventuras na África do Sul, fica dez meses no Orlando Pirates e lembra que time deixou de treinar três dias por causa de funerais: ‘Eles são amadores no futebol’. A manchete é extremamente racista trata a forma de entender o mundo do time sul-africano por via do sagrado como feitiçaria. A matéria descreve que o jogador passa por aventura na África do Sul, parece que jogar na Europa também não é uma aventura, uma experiência fora do país natal. Na Eurocopa os jogadores negros forma advertidos a não levarem os seus familiares por causa do racismo. Quer dizer que jogar na África é uma aventura não um trabalho. Muitas vezes lemos esse tipo de título sem analisar as mensagens racistas subliminares e aceita-se a fala de uma pessoa dessa pelo estado de alienação letárgico em que se vive. ‘De Racismo à Feitiçaria…’ Onde está o racismo na prática dos zulus ou na interpretação do goleiro Getúlio Vargas sobre o modo vivendis dos sul-africanos? E assim assina-se em baixo de falas vazias como essas. Vejamos abaixo as narrativas do jogador. Elas estarão sempre em itálico e em negrito para serem diferenciadas do texto que escrevo.

“Um exemplo disso foi que perdemos três treinos na semana antes da partida decisiva pela Liga dos Campeões da África por conta de funerais de funcionários e ex-jogadores”. No Brasil convivemos com tantas barbaridades, crimes hediondos no nosso cotidiano que perdemos a noção de que a vida tem valor. Aqui se mata por qualquer coisa e não há punição. Para o jogador brasileiro as vidas de funcionários e ex-jogadores que contribuíram no plano físico não têm importância, tem menos valor que um treino, no seu modo de pensar deve existir amor ao treino e não á vida nem à pessoa. Ele enfatiza perdemos ‘três treinos’ e as vidas, e pessoas não perdemos? No pensamento africano tradicional e em muitas populações africanas na atualidade e na religião de matriz africana entendemos a vida em dois planos o físico e visível e invisível. No mundo visível temos as pessoas e no invisível os ancestrais que são o alicerce das populações africanas e protetores. Na África os funerais são importantíssimos, são rituais reverenciadores do morto é o rito de passagem de um plano de vida para outro, no caso das pessoas mais velhas. É o momento de agradecer e festejar as contribuições e importância daquela pessoa para cada povo. Isso está longe da compreensão do jogador que só conhece o treino. Em nossa sociedade apenas as celebridades são dignas de rituais e comoção como se as demais pessoas não fossem importantes.

Na Guiné-Bissaui quando uma pessoa velha morre existe um ritual chamado desgosto. Nesse ritual se sacrifica até um boi e oferece-se a todas as pessoas vizinhas e familiares ou não. Nesse sentido podemos entender por que no período escravocrata os africanos foram violentados por não terem o direito de sepultar os seus mortos. No caso dos povos indígenas brasileiros proibidos de digerirem os seus mortos em ritos fúnebres. Rituais antropofágicos “selvagens” para as mentes colonizadas. Nesse sentido os rituais são importantes e vão além dos interesses capitalistas. A pessoa é um ente que morre não um pedaço de carne morta pronta para ser sepultada, cremada por preços exorbitantes de acordo com os planos funerários oferecidos nos grandes cemitérios.

Outro ponto fundamental é que a África não precisa de futebol para se dizer melhor do mundo. Quem precisa do esporte fazer autoapologia é o Brasil. Deveríamos nos sentir felizes se tivéssemos a melhor saúde, educação, distribuição de renda igualitária, punidade, justiça social, penalidade para políticos que cometem improbidade pública e crime contra o tesouro nacional e contra os bolsos dos contribuintes. De que vale ser o melhor no futebol e o pior em justiça social?

“Assistiu a intromissão do dono do clube na escalação […], se impressionou com os feiticeiros que cada clube tem na comissão técnica.” Interessante ninguém se impressiona quando o Papa visita países, diz que é contra o aborto e o uso do preservativo. Quando a igreja católica afirmou que negro e africano não tinham alma e por isso poderia ser cometido o crime da escravidão em massa dos africanos e afrodescendentes. Ninguém se impressiona com o desrespeito dirigido às pessoas que são professas do Candomblé ou Umbanda, quando os pastores evangélicos cometem crimes contra a população das religiões de matriz africana. A exemplo: “A Câmara Municipal de Piracicaba/SP, por unanimidade, com o apoio dos vereadores dos seguintes partidos: PT, PDT, PP, PPS, PTB,PR, PMDB, PRB, PSDB, aprovou em 7/10, o PL 202/2010 do vereador Laércio Trevisan (PR). Comentários em Piracicaba, informam que o referido PL. é parte de um MOVIMENTO chamado “ALIANÇA PARA A SUPREMACIA CRISTÔ, que tem por objetivo levar este projeto a outras cidades do Estado de São Paulo, depois, independente de quem seja eleito, encaminhar para a Câmara dos Deputados, através de deputados federais dos partidos envolvidos. Estes deputados, no momento, são mantidos no anonimato.”

Na religião tradicional africana não temos feiticeiros e sim sacerdotes. Até por que a palavra feitiço não existe nas línguas africanas, chegou ao continente com os invasores europeus, o que nos remete a dizer que feiticeiros eram os europeus. Os africanos utilizavam a sua prática religiosa para o equilíbrio do grupo.

A democracia é o respeito à opinião de todas as pessoas em decisões importantes e isso é um exercício africano. Os anciãos formavam um conselho para decidir junto com a população as tomadas de decisões importantes, essa intromissão, dita pelo jogador é exercício da democracia. No nosso caso quem se intromete são os patrocinadores por que estão pagando às equipes e apostam nos lucros e na alienação do povo que com isso vai comprar mais camisetas, chuteiras usadas pelos craques e bolas fabricadas pela Nike, Penalty, Dalponte, Miltre Tensile, Adidas, Puma, Umbro, Hummel, além dos jogos eletrônicos da FIFA. Na nossa democracia a opinião da população no país democrático não é levada a sério quando se trata de escalação de nenhum time.

“Também ainda senti muito a questão da segregação. Isso me incomodou bastante. Acontecia dentro do próprio elenco. Existem divisões entre os próprios negros também. Isso porque são oito tribos e os zulus acham que são superiores aos demais”. Engraçado que esse jogador vive num país racista, com grandes índices de pobreza da maioria da população que é negra e o racismo institucionalizado equaciona desde a moradia até os serviços devido ao racismo à brasileira. Os brancos no Brasil se sentem melhores que os negros isso está explicito nos livros didáticos, na mídia, nos empregos de maiores prestígios, nas recepções de muitas empresas, pessoas ainda são discriminadas por causa do cabelo e tem de alisá-los para conseguir empregos. As equipes de futebol voleibol, basquetebol equipes de pilotos de fórmula 1, nadadores, tenistas em sua minoria são negros, deveria ser diferente porque no Brasil a maioria da população é negra, por que não é maioria nos locais de prestígio. Engraçado que ele saiu do Brasil, o país mais racista do mundo, não percebeu que nos locais onde ele transita não vê negros e só viu segregação, só, na África do Sul! Pior ainda vê os africanos como povos tribais, denominação antropológica do início do século XIX.

“Nossa diretoria leva essa rivalidade tão a sério que só podemos enfrentá-los no Soccer City, quando o mando de campo é nosso. Quando jogamos no Ellis Park sempre perdíamos. Ninguém do Pirates pode aparecer vestido de amarelo e preto, são cores do Chiefs. Lá do outro lado é a mesma coisa, ninguém usa preto e branco.” Esse jogador esquece que no Brasil quando ocorrem os clássicos acontecem mortes brigas intensas, não são provocadas pelas diretorias dos times, mas a violência acontece, será assim também na África do Sul, será que essa rivalidade extrapola o campo de futebol como no Brasil?

“Cada time tem um ou dois feiticeiros. O nosso prepara um líquido vermelho antes de cada jogo e molha todas as camisas dos jogadores antes de vestirem. Além disso, somos proibidos de trocar as camisas depois das partidas. É a mesma coisa da primeira até a última rodada.” No Brasil celebramos missa, tomamos banhos de folhas escondido por causa do racismo antinegro, oferecemos camisas a santos padroeiros para que o time ganhe como vi várias no museu de Pe. Cícero em Juazeiro no Norte, inclusive autografadas. Todas as pessoas possuem energias, e elas devem ser direcionadas, as camisas utilizadas pelos jogadores estão envolta das energias de cada jogador por isso deve permanecer com eles. No pensamento africano tudo é energia, e força emanada do divino, o que chamamos de axé. Mas as mentes ocidentalizadas crêem no “ser ou não ser”, não conhecem situações intermediárias, têm o pensamento voltado para o positivismo.

“O Benni McCarthy era o meu grande amigo no elenco do Orlando Pirates. Ele e Joseph Moeneeb, outro goleiro do time. Benni falava a minha língua (ele jogou no Porto) e tinha a cabeça aberta, por ter atuado na Europa. Ficava mais comigo por perceber que os outros não se enturmavam. Ele estava bem gordinho, fora de forma, mas é um bom jogador diferenciado, fora de série. Mesmo com todo o problema de peso, ele fazia a  diferença para o Pirates”. Para Getúlio só se abre a cabeça indo jogar na Europa, ele esqueceu que com essa afirmação acusa a si meso de mente fechada caso não tivesse ido para jogar na Europa. O problema é que devemos ter a mente aberta para entender a cultura do outro, no caso do jogador isso não se aplica a entender e respeitar a cultura e modo de vida africana. Com o seu relato admite que teria a mente fechada se não tivesse ido jogar na Europa. Acusa os sul-africanos de serem fechados, quem se abre para pessoas racistas que não respeitam a cultura e modo de vida local? Expressa outro preconceito quando diz que o jogador está gordinho, mas é diferenciado, mas faz diferença no time? Por que diferenciado, por ter atuado na Europa?

“A demissão de Julio Cesar Leal foi uma surpresa para todos. O trabalho dele estava ótimo lá. Tinha conquistado dois títulos e estava em segundo lugar no campeonato. O problema começou com o dono do time se intrometendo na escalação do time para o jogo de volta pela Liga dos Campeões da África. O Julio não gostou e depois disso o time acabou eliminado. A demissão entrou na conta dessa eliminação.” Primeira pergunta, o Julio jogou sozinho no time? Tem times na Europa que o dono também se intromete. Jogadores brasileiros negros são chamados de macaco, recebem cascas de banana de presente da torcida européia e nem por isso pedem demissão nem ficam traumatizados.

“Cheguei em um momento que não estava mais feliz. Não agüentava mais a bagunça do clube e pedi pra ir embora. As coisas ficaram ainda pires depois da saída do Julio Leal, que me levou para lá”. Interessante Ronaldinho leva mulheres para a concentração do Flamengo e o mesmo clube está devendo 4 meses de salário para o mesmo jogador, é um time organizado? O problema é que o Getúlio Vargas, nosso jogador brasileiro estava na África do Sul pela presença do seu colega Julio Cesar. Dessa forma fica explicado por que os jogadores sul-africanos não se enturmavam.

No subtítulo Títulos da equipe. “ Nesse ano que fiquei na África do Sul conquistamos três títulos. A MTN Cup (seis primeiros colocados da PSL e mais o campeão e o vice do ano anterior da MTN), a Telcom Cup (dez primeiros colocados do ano anterior da PSL) e a PSL ( Campeão Africano). Conquistamos novamente a vaga para a Liga dos Campeões da África. Mas o projeto inicial de formar um time forte, com três estrangeiros, foi desfeito com a saída do Julio Cesar Leal”.  Colonização européia foi um caos, um desastre e um crime contra o continente africano e para as Américas. Quem disse que time forte só se faz cm jogadores estrangeiros? A colonização deixou de ser territorial e se tornou mais letal ainda quando se transforma em colonização mental, essa atua no nosso subconsciente e nos deixa numa condição psíquica de baixa autoestima diante de um país europeu mesmo que seja mais pobre do que o nosso. Por que na Europa também existe fome e pobreza. A pobreza é uma construção do capitalismo assim como o racismo. Quando se contrata jogadores é por serem bons e não por serem estrangeiros.

As sociedades africanas são complexas e fogem ao entendimento ocidental. É difícil chegar ao centro da complexidade principalmente com a mentalidade colonizada, alienada e europocentrada. Mas, contudo o jogador pode aprender alguma coisa. “O fornecedor do clube organiza uma campanha para levar  o time ao melhor colégio da África do Sul para um dia de atividades entre jogadores e os alunos. Nos surpreendemos quando chegamos em Limpopo, um subúrbio muito pobre de Joanesburgo. Fomos a um colégio que não tinha estrutura alguma para os alunos estudarem. Faltava salas, quadros, carteiras. As aulas eram ao  ar livre. E mesmo assim o colégio teve uma aprovação de  superior a 90% de acordo com o sistema nacional africano. Foi uma grande lição de vida. Valeu muito a pena ter participado e foi um dos grandes momentos que vivi na África do Sul. Serviu para tirar várias lições para a vida inteira.Queria ter tido a oportunidade de levar meus filhos lá depois, mas acabei não conseguindo.” Esse jogador vive fora da realidade, no Brasil vivemos essa situação desde o Brasil colônia, a educação  é o último interesse político, vivemos greves graves e intensas dos profissionais da educação do nível superior, fundamental e médio. No ENEM as notas são baixíssimas nenhuma escola no Brasil consegue a média 10. Por que o jogador não teve a oportunidade de levar os filhos depois? Pensemos, não estaria ganhando um bom salário no Brasil? Ou teria outro motivo?

“A organização e o nível do futebol brasileiro são outros e chegou a hora de voltar para casa. Ter essa rotina de concentração com brasileiros, falando português, e podendo jogar tendo amigos e familiares acompanhando tudo de perto. Lá fora ficamos um pouco isolados.” O isolamento dos jogadores fora é um fator comum, por que os jogadores africanos que tinham de se enturmarem? Na verdade a cultura é um fator importante para a adaptação de qualquer pessoa fora de seu habitat, mas uma coisa importante é chegarmos em qualquer lugar que seja e entender a cosmivisão do outro e respeitar a diversidade dos povos.

Deixo com mensagem esse reggae de Lucky Dube para uma boa reflexão!

Cores diferente / um povo 

Lucky Dube 

Quebrar aquelas barreiras
No mundo todo
Não foi fácil
Ontem você estava de boca calada
Não podia emitir som algum
Mas hoje a sensação é tão boa
Quando posso ouvi-los
Do outro lado do oceano cantando essa música
Que o mundo todo devia estar cantando
O tempo todo

(Refrão 3x)
Nós temos…
Cores diferente / um povo
Cores diferente / um povo

Ei, vocês aí do governo
Nunca tentem separar o povo
Ei, vocês, políticos
Nunca tentem separar o povo

Eles foram criados com a imagem de Deus
E quem são vocês para separá-los
A bíblia diz que ele criou o homem com sua imagem
Mas não dizia se era preto ou branco
Olhe para mim e você verá o preto
Eu olho para você e vejo o branco
Agora é a hora de deixar isso pra lá
E se unir a mim na canção

(Refrão 3x)

Ei, vocês, políticos
Nunca tentem separar o povo
Ei, vocês, homens, vocês, homens
Nunca tentem separar o povo

Alguns eram dos EUA
Nós éramos da África do Sul
Alguns eram do Japão
Nós éramos da China
Alguns eram da Austrália
Nós éramos do Reino Unido
Alguns eram de Zimbábue
Nós éramos de Gana
Alguns eram da Jamaica
Nós éramos da Rússia
Alguns eram de Aha-ha-ha
Nós éramos de Uhu-hu-hu

Obrigada por terem me dado a oportunidade de lerem esse meu escrito!

 

Referência bibliográfica em formato eletrônico

<http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2012/05/de-racismo-feiticaria-goleiro-ex-fla-passa-por-aventuras-na-africa-do-sul.html>

< http://www.vagalume.com.br/lucky-dube/different-coloursone-people-traducao.html>


[1] Doutoranda em Educação Brasileira. Faculdade de Educação da Universidade Federal do  Ceará. Linha de Pesquisa: Movimentos Sociais Educação Popular e Escola. Eixo Temático: Sociopoética, Cultura e Relações Étnico-raciais. Fonte de fomento CAPES/PROPAG

[2] Link onde está disponível o texto.


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