Querem calar nossos couros

“Brasília, Cidade Céu”, Rainha do Planalto, cada vez te quero mais, Brasília, capital da paz”. E é assim o refrão do hino da Brasília da minha adolescência. O lugar onde o por do sol é o mais lindo da Terra! O recanto escolhido por Dom Bosco, pelos seus sinais exotéricos, e sua luz, pra ser o centro da administração desse imenso país. Quantas recordações! Te canto, Brasília, por todos os cantos por onde ando. Brigo por ti. E agora tão distante, percebo-te ameaçada, fugidia, acovardada. Onde estão teus filhos nobres? Onde estão aqueles que te adotaram como mãe? Quem te defenderá?

Há quatro décadas atrás, ainda criança, por quantas vezes participei de tantas e tantas inaugurações de centros, barracões, reuniões. Era fim dos anos 60, e recordo com olhos úmidos, do Primeiro Festival Brasiliense de Umbanda e Candomblé, organizado por uma equipe de pessoas recém chegadas à Brasília, e que, com conhecimento e disposição erguiam ali os primeiros barracões, tímidos ainda, mas divulgando e levando para o centro de nosso país, a nossa cultura. E ali, todos juntos, numa mistura heterogênea de regionalismo, via-se nordestinos, mineiros, paulistas, cariocas, enfim todo o Brasil representado, na ânsia de cada um de ter encontrado o Eldorado Brasileiro; e no mais novo estádio construído na Capital reuniu milhares de pessoas, para louvar os Orixás. E os atabaques chamaram, cantaram, louvaram, e com certeza, foram ouvidos. Naquele dia, eu podia assistir da platéia timidamente, pessoas de todas as classes sociais, abraçando-se, trocando bênçãos, e enciumadamente, não gostava quando meninas como eu, eram beijadas na testa por meu amado e finado pai. eu não entendia ainda o porque de tanta reverencia eu não entendia nada da genealogia e hierarquia do candomblé. Naquele dia eu só podia enxergar que no centro de tudo isso estava lá o meu amado pailutando em nome do que para mim era ainda o desconhecido.

E hoje Brasília, responda-me. Meu amado pai, agora, ao lado de Oxossi, deve perguntar-se porque tanta luta? Terá sido em vão? Desde a época das inaugurações a até bem pouco tempo, ele foi conhecido como o melhor reparador de atabaques do Distrito Federal. Jamais tocou para louvar os orixás, mas, era invencível em sua habilidade para restaurar um atabaque. Quantos couros passaram em suas mãos! Quantos orixás dançaram por suas mãos!
Ele se foi, o dileto Ogã da Goméia, candango por opção, marceneiro dos Deuses! E agora, minha Brasília querida, querem calar nossos couros! Em nome de quem? De que Deus? Mercenários apenas, sem história.

Ergue-te Rainha, descruza teus braços, como fez JK, e retoma tua fama de moderna, imparcial, acolhedora, exotérica, mística e única! Repudie aqueles que te querem ver submissa e acorrentada aos grilhões dourados da fé vil e insensata. Tu és nossa. Nossa capital. Entendes a língua de cada brasileiro sejam rezas, orações, ladainhas, mantras, testemunhos, então, ouça a voz de nossos atabaques e não permita que os calem!

In memorian” à meu pai Ogã Dário( Odé Katukê)
Partiu em 04/2011

Por Ngangalesi

2 opiniões sobre “Querem calar nossos couros”

  1. Rosivalda dos Santos Barreto disse:

    Essas são questões políticas e econômicas!!

  2. Ngangalesi disse:

    Obrigada meu mano, por essa publicação. Esa intolerancia acobertada por “defensores da Lei”de Brasília, muito entristeceu meu coração. Eu fui criada em Brasília, eu e ela fomos meninas junta, e sei que lá não cabe e jamais caberá intolerancia. Brasília, por si só é um condomínio de diversas crenças, até então irmanadas na paz! E há de continuar sendo.
    Estaremos sempre atentos e participativos!

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