Tolerância Religiosa

Por que falar sobre intolerância religiosa ressaltando a fragilidade e ignorância daquele que quer através de sua religião subalternizar e demonizar a fé do povo negro? Esse texto relata a tolerância não apenas religiosa das(os) africanas(os) e das/dos afrodescendentes, mas a tolerância em termos gerais que vem a partir da inventividade. A tolerância é a maior forma de resistência ao racismo.

Fazendo isso ressalto a inteligibilidade das (os) africanas(os) e afrodescendentes num sentido amplo. Mostra-se também a capacidade da (o) africana (o),  das(os) afrodescendentes e religiosas(os) candomblecistas em fazer contato, incorporando, interagindo e se integrando a outra cultura sem ferir nenhum princípio filosófico religioso alheio. É digno de nota que a incorporação e interação entre culturas e religiões tradicionais africanas sempre foi uma constante, visto que o islã e a igreja católica estão presentes na sociedade africana há séculos.

As pessoas devotas da religião de matriz africana estão livres das doutrinas que excluem, oprimem e discriminam. Tomo como exemplo nesse momento o exercício da tolerância dos(as) africanos (as) e afrodescendentes na terra brasilis com a prática do candomblé e da Santeria cubana a qual não tratarei aqui, mas posso dizer que, quanto ao espaço pode se adequar em suas casas templos em lugar do terreiro. Nessas duas devoções existe respeito por todas as pessoas independente de crenças religiosas, opção sexual e cor. Não tinha analisado o termo intolerância numa perspectiva de tolerância até ser tocada pelo Professor e Pesquisador da Universidade Federal do Recôncavo Baiano, Prof. Dr. Emanoel Luís Roque Soares. Termo que tomo de empréstimo para explicar que, a partir da compreensão de nossa tolerância podemos trilhar o caminho do debate tangível à religiosidade afro-brasileira em prol do respeito à nossa própria religiosidade.

O professor Emanoel no seu texto ‘Tolerância do Africano à Afrodescendência’ explica que o seu texto é um mosaico produzido a partir de sua tese. Ele trata explicitamente da tolerância da(o) negra(o). Inicia sua narrativa exemplificando e explicando a tolerância natural do africano a partir de um fato concreto a seguir. O Daomé, atual Benin, por um longo período ficou sem rei e recorreu ao reino estrangeiro de Ilê Ifé para realizar o casamento de uma jovem de seu povo com um soberano estrangeiro, o que virou tradição promovendo troca de valores.

O islã é uma religião praticada nos países do norte africano, contudo é digno de nota que o islamismo é incorporado às religiões tradicionais africanas. O catolicismo desde o século XV é conhecido no Congo, Angola entre outros também com aceitação dos soberanos locais. Santa Efigênia e Santo Elesbão, são santos católicos africanos. Kimpa Vita no Congo e a rainha Nzinga  em Angola se converteram ao catolicismo. A primeira criou o antonionismo se insurgindo contra a colonização, tendo como pena a morte na fogueira, e a segunda livrou Angola do jugo português conseguindo desestabilizar estrategicamente o tráfico de africanos daquela região para o Brasil.

Notadamente os africanos/as têm contato com religiões exógenas antecedendo a invasão colonial. É notável que o interesse religioso vindo de fora tem cunho político e econômico, em favor de um sistema capitalista que desde então se estrutura metamorfoseando-se tornando-se desumanizante, predador e etnogenocida em termos gerais. Mas pela religiosidade enraizada a(o) africana(o) resignificou o islã  e o catolicismo incorporando o que lhe convinha dessas religiões para a sua profissão de fé. Isso é tolerância. Vejamos o seguinte nos versos da música ‘A Mão da Limpeza’ do cantor e compositor baiano Gilberto Gil,

O branco inventou que o negro/ quando não suja na entrada, vai sujar na saída, ê! Imagina só. Na verdade a mão escrava/ passa a vida limpando/ o que o branco sujava. Ê! Imagina só! […] Mesmo depois de abolida a escravidão/ Negra é a mão, de quem faz a limpeza./ Lavando a roupa encardida, esfregando o chão./ Negra é a mão, é a mão da pureza. /Negra é a vida consumida ao pé do fogão./ Negra é a mão, nos preparando a mesa./  Limpando as manchas do mundo com água e sabão. /Negra é a mão, de imaculada nobreza […].

Esse é uma atitude tolerante ao desrespeito do(a) indivíduo branco(a) que se intitulou superior ao negro. A mão-de-obra, as orquestras, as mães de leite, os trabalhadores, os especialistas na arte do ferro, agricultura, pecuária, costura entre outros ofícios eram afrodescendentes. O/A negro/a com toda a desumanidade que lhe foi imposta não se negou a servir, mesmo se rebelando, mesmo se aquilombando, mesmo resistindo de todas as formas. Veja-se que os quilombos sem restrições recebiam negros, índios e brancos pobres.

A africanização das festas católicas é um dado inegável. Na Bahia, por exemplo, outra atitude de tolerância. As festas religiosas como a de Iemanjá, do Nosso Senhor do Bonfim, reverênciando Oxalá, na qual a Lavagem do Bonfim se tornou notória, popular e reconhecida internacionalmente. A de Nossa Senhora de Santana, o povo de santo reverencia Nanã; e Santa Bárbara, o povo de santo lembra Iansã. Isso quer dizer que tolerando o racismo anti-negro que fere com ferro e fogo a religião afro-brasileira ainda assim reverencia os santos católicos não os confundindo e se serve das benesses do catolicismo.

No caso de Nossa Senhora da Boa Morte e Nossa Senhora da Glória na Festa da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira, Bahia. O que as mulheres da irmandade fizeram com a crença católica e como a africanização se explica dessa forma: Catolicamente falando, Nossa Senhora não morreu foi assunta ao céu. Na religião de matriz africana a morte não existe e sim a passagem de um plano físico, material, do Aiyê, para o plano invisível, o Orun. Nada melhor do que reverenciar Nossa Senhora da Boa Morte e Nossa Senhora da Glória vencendo a morte e aplicar ao princípio da ancestralidade, onde a morte inexiste. Além do princípio da circularidade onde a energia retorna para Deus, o supremo. É ingenuidade pensar que os negros/as estavam convertidos a qualquer religião. Eles e elas resignificaram a sua prática religiosa e incorporam o que se afinava à religião tradicional africana. Isso é tolerância religiosa.

Em Salvador os africanos malês foram acolhidos pela irmandade do Rosário dos Pretos na ocasião da Revolta dos Malês. De acordo com o Júlio César, Prior da irmandade da Boa Morte isso se explica da seguinte forma:

Líderes mulçumanos fugidos das perseguições dá própria igreja católica e do império eles vão se abrigar na igreja do Rosário dos Pretos. Que aí que tem uma coisa muito interessante na festa de Nossa Srª do Rosário, que é agora em outubro. Nafesta de confraternização é servido um escaldado de bacalhau, e esse escaldado de bacalhau é servido com toucinho. O escaldado de bacalhau leva uma peça de toucinho, toucinho de barriga. Aí todo mundo pergunta por que que leva toucinho, aí a gente explica. Que na época depois da revolta dos malês muitos deles entraram na irmandade, mas a igreja católica tava de olho pra ver se tava praticando a fé cristã ou a islâmica dentro da igreja, e pra provar que não estava se praticando a fé islâmica colocava um peça de toucinho, que mulçumano não come derivado de porco, não é isso? Então se colocava aí foi uma estratégia muito interessante não é? Mas isso não quer dizer que os que estavam lá dentro da Irmandade não faziam suas práticas mulçumanas dentro de suas casas. Que D. Ivone que é uma irmã nossa que tá com 88 anos, o bisavô dela era um negro malê e ela tinha as orações, ela doou as orações para os pesquisadores Caetano Monteiro, ele escreveu um livro […] malês ela coloca essas orações que o avô dela tinha guardado, em árabe, um árabe arcaico que nem hoje os próprios árabes não conseguem identificar e ai ela guardava isso e você sente a presença mulçumana dentro da irmandade.[2]

Note-se que mesmo assim a igreja católica estava em alerta para a conversão forçada de quem frequentava a irmandade, o que não enfraqueceu a fé de nenhum devoto no candomblé.

De acordo com Emanoel em Cachoeira depois de inicado/a o ebômim vai assistir a uma missa na igreja de Nosso Senhor dos Passos e em Salvador na Igreja do Nosso Senhor do Bonfim. Outro dado marcante é na África se reverenciava cada orixá em sua terra, povoado ou cidade, em local específico, a exemplo de Xangô em Oyo, Oxóssiem Ketu. O Candomblé, não existia na África, é uma ressignificação da religião tradicional africana, inventado no Brasil e consegue reunir os orixás e ancestrais em um só território, o terreiro, dada à necessidade de recuperar os laços familiares consanguíneos perdidos no tráfico negreiro criminoso. É outro sinal de tolerância não só dos africanos, mas dos ancestrais e dos seres divinizados que os acompanhou até o Brasil. Incorpora-se ao candomblé o culto ao índio, os caboclos, o que significa reverenciar os ancestrais e donos da terra.

A prática da religiosidade africana não conhecia o xirê, momento em que os orixás são reverenciados nas festas públicas de candomblé. De acordo com Soares (2011, p. 22) o xiré

É a ordem das músicas executadas pela orquestra ioruba, formada por três atabaques, rum, rumpi, lé, e mais o agogô. Na execução das músicas forma-se uma grande roda onde as ou os ebômim, filhos e filhas de santo, entram em transe recebendo os Orixás, donos da sua cabeça, para em seguida, vesti-los, com suas cores e insígnias, sempre dançando e cantando.

No candomblé

[…] os orixás de grupos étnicos diferentes dançam juntos consagrando, assim, a mistura de raízes africanas, formando um areligião tipicamente brasileira, todos convocados por Exu, que foi alimentado no Padê, para promover este encontro, esta transformação mágica que é recontar os mitos e reencontrar os tempos ancestrais. (SOARES 2011, p. 23)

Para explicar a acomodação da religiosidade tradicional africana no Brasil observemos o seguinte exemplo, Emanoel (2011, p. 24) explicita que Iemanjá era cultuada no afluente do rio Ogum e no Brasil passou a ser cultuada  nas águas salgadas, sendo a mãe das águas do Atlântico, dona da cabeça da humanidade, equilíbrio mental dos homens e mulheres, festejada em todo o país além de ser a mãe de todos os homens e mulheres.

Emanoel ainda registra o desaparecimento de alguns orixás a exemplo de Oco, que era pai da agricultura na África, sem registro no Brasil. O culto a Orumilá desaparece ficando o seu atributo divinatório por conta dos babalorixás e ialorixás assessorados por Oxum e Exu. Segundo Soares (2011 apud Prandi, p. 25) não se manteve como na África  os alassains,  grupo de curadores herboristas,  que no Brasil se restringiu apenas à colheita de folhas e o curandeirismo ficou atribuído aos pais de santo. No entanto,  o culto de Ossaim se assemelhou aos dos demais orixás, inclusive se manifestando. Iroco que na África era o nome de uma árvore grande, no Brasil se transforma num orixá se manifestando e recebendo oferenda. Nessa esteira os Exus ganham versões femininas Maria Padilha e Pombagira alteração da língua banto Bombogire.

Ainda no que tange á tolerância. Jean Rouch grava na Nigéria o documentário ‘Os Mestres Loucos’. Nele se destaca uma cerimônia anual, o ritual do culto Hauka, em Accra. É um filme com cenas fortes, onde ocorrem possessões de espíritos de alguns personagens coloniais como: o governador, o doutor, a mulher do capitão, o general, o condutor da locomotiva, o cabo de polícia. Ve-se aqui que não existe nenhum a resistência à incorporação de personificações representativas da colonização.

A Tolerância acontece num espaço de contato com o outro. É uma atitude ativa, aparentemente pacífica onde as(os) africanas(os) e afrodescendentes no Brasil e em Cuba não se submeteram. Estrategicamente realizaram os seus desejos se utilizando do artifício da tradição oral. Transformou, acomodou, incorporou, complementou e resiste enfrentando os colonizadores que tomaram como base a desqualificação, potencializando sua supremacia, se utilizando da intolerância, hegemonia, e fundamentalismo impondo sua crença na tentativa de submeter o outro pela fé. (SOARES 2011, p. 28). Segundo Soares (Op. Cit.) essa estratégia é exuriana pela qualidade de comunicação. As igrejas estão aí e precisamos estar estrategicamente atentos e fortes porque a religião também é objeto do mercado capitalista. As igrejas não descansarão diante da necessidade de converter em fiéis tantos quantos forem necessários para sobreviverem na sua fé em detrimento à destruição da fé do outro, no que precisamos estar alertas! Enfim a tolerância é a força do afrodescendente e da sobrevivência da religiosidade afro-brasileira.

Rosivalda Barreto

BIBLIOGRAFIA

SOARES, Emanoel Luís Roque. Tolerância do Africano á Afrodescendência. In: O Pensamento Pedagógico Hoje. (Orgs.) VASCONCELOS, José Gerardo; SANTANA. José Rogério. Fortaleza: Edições UFC, 2011.

Os Mestres Loucos. Direção Jean Rouch. Intérpretes praticantes do culto Haucas. 1955. 55min. Documentário. França. Formtato: DIVX. Tamanho 227 Mb. Legenda Pt-BR. Sinopse disponível em: <http://www.cineconhecimento.com/2011/03/os-mestres-loucos/>. Acesso em: 17 fev. 2012.


[1] Doutorandaem Educação Brasileira. Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará. Linha de Pesquisa: Movimentos Sociais Educação Popular e Escola. Eixo Temático: Sociopoética, Cultura e Relações Étnico-raciais. Fonte de fomento CAPES/PROPAG

[2] Entrevista concedida por Júlio César, Prior da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos para a minha dissertação de mestrado.

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